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Apesar de serem muito diferentes na sua forma de trabalho, Belling e Salvaterra sabiam que era a confiança que estabeleciam com os seus pacientes que trazia a verdadeira cura para a alma. A eficácia dos seus tratamentos tinha algo de “efeito placebo”. O efeito placebo não criava ilusões menos verdadeiras, não sendo este o propósito; na realidade, ajudava as pessoas no processo de construção de um “convencimento interior” de que as técnicas empregues poderiam de facto intervir na alma e curar os seus piores traumas. Estes métodos funcionavam realmente com sucesso, mas os mais céticos tinham dificuldade em aceitar esta ideia, pelo que era importante criar a aparência dessa mesma eficácia. O que efetivamente importava nesse processo é que o efeito pretendido funcionava muitas vezes e, por essa razão, era utilizado pela maioria dos hipnotizadores que integravam o Conselho Nacional de Hipnose. A confiança com os pacientes era assim o elemento fundamental para uma carreira de sucesso na área da hipnose.
Marcus Belling e a sua equipa de trabalho tinham há muito tempo conhecimento dos métodos de trabalho de Josef Salvaterra. Este possuía uma postura de maior autoridade e de arrogância que assustava todos aqueles que já estavam habituados à relação democrática e aberta que mantinham com Belling no seu gabinete. Sem surpresa, os dois hipnotizadores faziam parte de duas escolas diferentes de hipnose que defendiam posturas distintas na relação entre hipnotizador e hipnotizado. O passado dos dois homens explicava também a sua opção pelo recurso a técnicas tão diferentes.
Vale por isso a pena conhecer agora um pouco melhor Josef Salvaterra. Tendo mais alguns anos de prática do que o seu concorrente, teve uma infância difícil, embora sempre acompanhado pelo seu tio rico. Um pouco mais velho do que Belling, de olhos e cabelos castanho escuros, tinha a alcunha de “batata” quando era pequeno devido à forma achatada do seu nariz que muitas vezes fazia lembrar uma verdadeira batata. Salvaterra foi na realidade o primeiro grande hipnotizador conhecido do público. Também nessa altura pouco se sabia acerca da hipnose, apenas que se tratava de um método terapêutico muitas vezes complementar da medicina convencional. Neste aspeto, o uso da palavra correta tinha-se tornado fundamental: há vinte anos, a hipnose era complementar, não alternativa aos métodos existentes, no que respeitava ao tratamento de hábitos de vida nocivos e de diagnóstico das doenças. A diferença na terminologia empregue tinha influência no processo de credibilidade da prática da hipnose.
Ao crescer, Salvaterra percebeu que a escolha da profissão era importante para alimentar todos os egos inflamados que se tinham escondido durante todo aquele tempo. O tio rico sempre tinha considerado uma boa ideia o sobrinho seguir a carreira de hipnotizador. Neste campo, começavam a florescer as primeiras formações de hipnose, pelo que existiam mais oportunidades de o sobrinho ser pioneiro em algo que as pessoas ainda não estavam ainda habituadas a lidar e a ouvir. Também já não era necessário frequentar a Universidade de medicina, cujos longos e extensos cursos contribuíam para uma maior delonga, desnecessária, numa carreira que se pretendia ser lucrativa, desde o primeiro dia. Por essa razão, desde cedo que o tio lhe começou a incutir o interesse pela hipnose, chamando-lhe a atenção que aquela carreira poderia ser o seu futuro sucesso, se tivesse a coragem de explorar terrenos que nunca tinham sido percorridos. Para o ajudar na decisão final, ele apresentou-lhe a jovem Marbella Gorey, de olhos castanhos escuros e quentes, por quem o sobrinho se apaixonou loucamente. Ele sabia que Marbella era ousada, ambiciosa e gananciosa. Com a sua astúcia e alguns encantos próprios, ela conseguiu assim convencer Josef Salvaterra a lançar-se na carreira de hipnotizador, tornando-se ela própria beneficiária desse mesmo sucesso. O tio e Marbella estavam felizes, e bem assim também Salvaterra que apesar de tudo encontrava na sua profissão o alento necessário para esquecer a sua infância difícil. Tudo estava a correr bastante bem neste percurso até Marcus Belling se ter começado a destacar a nível nacional. Ao mesmo tempo, nesta época, já o perfil de Salvaterra como hipnotizador se encontrava definido; a sua arrogância desencorajava-o de continuar a investigar na sua área de trabalho e desta forma começou, progressivamente, a usar um tom cada vez mais autoritário com os seus pacientes. Nem todos possuíam o espírito crítico orientado para duvidar que era “possível fazer diferente”. Esta abertura de mentalidades apenas surgiu alguns anos mais tarde, com Belling.
Marbella Gorey não ficou igualmente satisfeita com o mediatismo de Belling. Sem o confessar, este acontecimento levou-a a considerar o seu casamento com Salvaterra como um projeto falhado. Tanto ela como tio rico, jamais poderiam imaginar que iria sobressair no panorama nacional um talento inato para a hipnose, como o de Marcus Belling. Contudo, também ela se tinha apaixonado ao início por Salvaterra e por isso não questionou afastar-se dele, pelo menos durante os primeiros dez anos. No entanto, o seu espírito inquieto mandava nela e não se conformava com aquela situação. Marbella começou assim, ao longo do tempo, a atiçar a disputa entre os dois hipnotizadores e a necessidade de ganhar mais dinheiro e estatuto social orientava-lhe todos os propósitos na vida. De alguma maneira, tentava ter o controlo sob as receitas geradas com as sessões de hipnose realizadas no consultório do marido. Marbella Gorey era particularmente venenosa, para além de ser uma pessoa com quem ninguém se sentia bem. Com os anos, foi ganhando um corpo cada vez mais raquítico como se por dentro estivesse a ser devorada por vinganças pessoais que não conseguia ultrapassar.
Marbella era uma grande amiga de Jasmine, sendo esta a única pessoa capaz de controlar Marbella e de a manipular para os seus próprios fins. As duas eram amigas há muitos anos. Na realidade, Jasmine era uma pessoa única e diferente, talvez por ser orácula, vidente e cartomante o que lhe tinha permitido desenvolver fortes perceções extra-sensoriais que a tornavam uma pessoa a quem se recorria em situações de dificuldade. Assim, quando Anne Pauline entra na vida de Marcus Belling também a sua própria vida irá mudar, tanto no presente como no passado.
Josef Salvaterra não tinha medo da mulher. Conhecia-lhe bem o caráter e sabia impor a sua autoridade. Amava-a profundamente. Por a conhecer tão bem, ele sabia perfeitamente quando é que ela o tentava controlar e manipular, o que raramente acontecia, pois ele não aceitava com facilidade as suas sugestões para dirigir o seu trabalho enquanto hipnotizador, numa dada direção. Isto sucedia particularmente quando ela lhe recomendava pessoas para trabalhar juntamente com ele, que normalmente serviam de espiões para controlar Marcus Belling e a sua equipa. «Tens de assegurar o lucro certo ao final do mês», dizia-lhe ela frequentemente. Marbella, por seu lado, não insistia. No fundo, ela tinha bastante receio de perder a sua “galinha dos ovos de ouro” e, por essa razão, ao longo do tempo, aquela união foi-se tornando uma relação de conveniência.
Ao contrário de Marcus Belling, Josef Salvaterra não contava com uma equipa leal que defendesse e promovesse o seu trabalho enquanto hipnotizador. Pontualmente, ele contava com a participação de pessoas escolhidas pela mulher para melhorar e controlar a parte logística da sua profissão, mas rapidamente as dispensava. Tanto Salvaterra como Marbella, tinham necessidade de dominar todas as circunstâncias daquele negócio; efetivamente, a hipnose era apenas um negócio e os seus pacientes eram seus clientes. Não existia ali um espírito de missão pública que os movia, e as receitas geradas pelas sessões de hipnose eram a principal razão para manter o consultório aberto. Este localizava-se numa zona oposta da cidade ao de Belling, longe da conhecida Avenida do Sol.
Ao mesmo tempo, Marbella tinha ainda um pequeno desejo e ambição escondidos. Desejo esse que nunca confidenciara ao marido. Na cidade existia um clube secreto que era conhecido como o “Clube da Feitoria” bastante restrito e do qual faziam parte as mulheres mais ricas do país. Tinha-se tornado uma honra fazer parte desse mesmo clube e comentava-se, em sussurro, que estas mulheres controlavam um grande número de estruturas ligadas à cultura e à educação, o que lhes devolvia ainda mais poder. Altamente privilegiado, o clube não aceitava qualquer mulher, mas apenas aquelas que demonstravam possuir rendimentos de uma certa categoria. Na realidade, Josef Salvaterra conhecia os intentos da mulher e a sua vontade em pertencer ao tal “Clube da Feitoria” embora esta ideia não lhe agradasse. Ele queria-a junto de si. De facto, ele sentia-se por vezes sufocado com a sua constante presença, mas ficava igualmente perdido quando ela desviava a sua atenção para outros interesses. Jamais Salvaterra pretendia que ela integrasse o tal Clube, com receio de ela própria se desinteressar dele. Por essa razão, várias vezes Marbella expressou a Jasmine que via um pouco Salvaterra como o destruidor dos seus sonhos; esta era uma ideia e um sentimento que ela foi alimentando de forma perigosa e que lhe fez nascer um estranho desejo de vingança em relação ao marido. Marbella e Josef Salvaterra viviam assim um casamento de conveniência, embora o hipnotizador ainda amasse a mulher. Em ambos era possível encontrar a mesma antipatia para com Marcus Belling que lhes fazia novamente despertar o sentimento de orfandade que continuava a inquietá-los.
Para agravar ainda mais esta situação, Marbella atiçava a inveja no marido e Salvaterra sentia-se encurralado neste sistema. Ele amava a mulher, mas por vezes não a compreendia. Ele estava a envelhecer e as antigas disputas com Marcus Belling já o cansavam, razão pela qual rapidamente recolhia ao seu local de trabalho sempre que a mulher vinha ter com ele. Quando Anne Pauline toca à campainha do consultório de Belling já quase não existia entendimento possível entre Salvaterra e Marbella: os dois não se compreendiam e progressivamente começaram a ter diferentes propósitos na vida. A distância entre ambos era apenas um facto visível de algo mais profundo que ocorria dentro do espírito e da alma.
A vida e as experiências pessoais dos dois hipnotizadores moldaram-lhes assim duas formas distintas de praticar hipnose. De forma inevitável, estes acabaram por estabelecer diferentes níveis de confiança com os seus pacientes. Como era conhecido, um era considerado mais democrático, o outro mais autoritário, embora nem todos tivessem a mesma perspetiva acerca do conteúdo real desta “autoridade”. Gradualmente, intensificou-se a luta pela ribalta.
Quando Anne Pauline toca, neste dia, à campainha do consultório de Marcus Belling, ela desconhece todas estas histórias de vida. Também ela própria tem a sua, por vezes dividida entre o presente e o passado. Por um lado, ela não sabe que existe uma equipa leal e dedicada que trabalha com Belling, que Marbella e Salvaterra possuem uma acérrima disputa com o famoso hipnotizador há vinte anos, e que Sofia Estelar e Maria de Burgos desenvolveram um esquema operativo bastante bem elaborado no consultório da Avenida do Sol. Por isso, nem a própria Anne Pauline tem consciência do que está prestes a desencadear com o seu aparecimento.
O consultório de Marcus Belling funcionava num prédio antigo, entre os muitos que tinham sido construídos durante o século XVIII na principal avenida da cidade. Ao longo de dois quilómetros existiam aqui inúmeros cafés e restaurantes, esplanadas repletas de pessoas, e sobretudo, muitas fontes de água que eram verdadeiras preciosidades arquitetónicas. Para além de tudo isso, não muito longe do n.º 27, ficava localizada a estátua da Fénix que tinha sido mandada erigir no início do século XX: um enorme pássaro parecia levantar-se do chão, para depois levantar voo. Ao seu lado, numa espécie de pia, encontravam-se as suas cinzas, que significavam o seu renascimento. Há muito tempo que a jovem Anne Pauline andava à procura da sua identidade e precisava desesperadamente de saber o que tinha acontecido no seu passado. O homem que lhe aparecia todas as noites há muitos anos em sonhos, quase que lhe tinha exigido que ela regressasse ao seu passado. Por outro lado, ele tinha-lhe destruído a sua confiança interior, fazendo-a duvidar da pessoa que ela era realmente. Ela precisava de se reerguer, tal como o pássaro da Fénix.
Desta forma, ao caminhar em direção ao consultório de Belling, Anne Pauline parou em frente à estátua para admirar a sua arquitetura. A pintura que cobria o pássaro já se tinha desvanecido com o tempo, tendo permanecida intacta apenas a força da pedra, uma metáfora para mostrar que era sempre necessário confiar num futuro melhor. A jovem respirou fundo e encontrou ali alguma esperança para si mesma, tal como quando observava a “Ilha dos Pássaros” na sua praia.
A Avenida do Sol, larga e esplêndida, era a principal artéria da cidade. Sendo uma avenida entusiasmante, repleta de cafés e restaurantes, era frequente ver aí sentados Belling e Sofia Estelar a conversar. As mulheres que reconheciam o famoso hipnotizador aproveitavam esta sua aparição para pedir autógrafos e tirar fotografias, o que apenas incomodava ainda mais a sua secretária pessoal. Sofia Estelar era mais do que uma confidente próxima. No fundo, a sua relação próxima com Belling tornou-a quase como uma amante dissimulada que não podia expor os seus verdadeiros sentimentos, ainda que quisesse. A verdade é que Marcus Belling não imaginava que algo de intenso a pudesse estar a consumir, mesmo que trabalhasse com ela diariamente.
Talvez por tudo isto, Sofia Estelar exagerava nos pedidos que dirigia às mulheres que pretendiam ter uma sessão de hipnose com Belling. «Tudo isto tem caráter obrigatório», dizia ela obrigando-as depois a preencher papéis intermináveis quase para as fazer desistir dos seus propósitos. Existia nela algo de manipulador, difícil de controlar. Apesar de tudo, ela conseguia filtrar os casos prioritários, distinguindo os casos urgentes daqueles que não o eram, apercebendo-se sobretudo, dos meros curiosos que vinham apenas saciar o seu gosto pela fama. Mas a astúcia de Sofia Estelar não era verdadeiramente conhecida por Belling que se escondia por detrás da sua característica capa de ingenuidade, para justificar o seu desconhecimento relativamente à abordagem que existia no consultório, por parte da sua secretária.
Anne Pauline tocou ao meio-dia à campainha do n.º 27 da Avenida do Sol. Perante o silêncio, tocou uma segunda vez. O sol e o calor pareciam ter amolecido as pessoas que agora caminhavam de forma dolente pela avenida, quase como se pressentissem a revolução que estava prestes a ocorrer. Naquele momento, as cores vermelha e dourada que ainda resistiam da estátua da Fénix acentuaram-se como se o pássaro quisesse tomar vida e voar. Seguidamente, como acontecia duas vezes por dia, o mecanismo elétrico que existia dentro da estátua fez acionar o movimento das placas onde se encontravam as cinzas, de onde agora corria uma água límpida e fresca. Subitamente, a estátua tinha-se transformado numa fonte de água.
Entretanto, enquanto Anne Pauline esperava que Sofia Estelar lhe abrisse a porta, algo de muito importante para a sua vida estava a acontecer, naquele preciso momento, numa outra zona da cidade.
Georgine Gunderson era bibliotecária há muitos anos e, naquele dia de verão, tinha sido chamada pelo diretor de arquivos da biblioteca municipal. Não medindo mais de um metro e sessenta, de olhos verdes escuros e rosto oval, recebeu a informação que tinha sido destacada temporariamente para a antiga biblioteca nacional, já extinta. Seria assim a única funcionária permanente daquelas instalações, abandonadas há mais de sete anos. O antigo edifício da biblioteca, do século XIX, albergava agora encomendas e livros que, por motivos logísticos, não podiam ser guardados noutros locais da Câmara por falta de espaço. Era um espaço antigo que tinha funcionado como repositório dos mais importantes catálogos da cidade e que se encontrava fechado há vários anos.
Georgine Gunderson não compreendia a razão pela qual tinha sido colocada naquelas funções, extremamente solitárias e aparentemente inadequadas à sua experiência profissional. Por momentos, pensou que o seu segredo mais íntimo tinha sido revelado. Sim, ela tinha um segredo. Existia ainda outra hipótese; talvez as suas investigações fora do horário de expediente para descobrir a verdadeira história da Avenida do Sol, tivessem incomodado as suas chefias, sendo esta a forma encontrada, de se voltar a concentrar no seu trabalho. A verdade é que, neste dia, ela era oficialmente a única funcionária destacada pela Câmara para arquivar livros na extinta biblioteca.
– É apenas um espaço temporário. Precisamos de alguém que, por agora, nos possa ajudar a dar alguma arrumação ao que ainda lá se encontra naquela biblioteca. Hoje chegou uma encomenda importante. Preciso que a Georgine vá até lá e ajude a arrumar os livros que vieram hoje. Vai lá ficar durante os próximos nove meses. Depois disso, volto a colocá-la como funcionária permanente na nova biblioteca, prometeu-lhe o chefe.
Ela nada podia fazer. Relutantemente, Georgine Gunderson foi naquela manhã para a rua onde ficava localizado o edifício da biblioteca antiga. À sua espera, num pequeno camião, estavam várias caixas de livros que foram trazidas para dentro das instalações. Com cuidado, todas as caixas foram colocadas em cima de uma antiga mesa, hoje coberta de pó. Algo naquele espaço a assustava. Georgine não gostava de ser a única pessoa a trabalhar naquele lugar inóspito, atualmente fechado ao público.
Cuidadosamente, a bibliotecária abriu todas as caixas que lhe tinham chegado naquele dia. Todas elas tinham sido numeradas pela Câmara. Não sabia de onde vinham aqueles livros e essas explicações nunca lhe foram dadas. Foi assim, com bastante alívio, que após duas horas de trabalho, abriu a última caixa daquele carregamento: a BO18. Lentamente, com muito cuidado, começou a colocar os livros nas prateleiras. Georgine Gunderson não sabia, mas naquele dia, fora destacada para guardar um segredo. Segredo esse que ela teria de manter em segurança durante os próximos nove meses, de acordo com as orientações dadas pelo seu chefe. Entretanto esperava-lhe muito trabalho.
Os nove meses significariam muito, tanto para Anne Pauline, como para Georgine. Sem que as duas pudessem ainda adivinhar, os seus destinos acabariam por se cruzar. Isto porque, embora Georgine Gunderson não estivesse habituada a guardar segredos porque ninguém os confiava (não por falta de confiança, mas porque ela era uma pessoa invisível aos olhos dos outros), a verdade é que ela guardava agora uma verdade inconveniente acerca da nova paciente de Marcus Belling. Sem o saber ainda, fechou a caixa BO18 e, com um sentimento estranho, regressou a casa.
O Mistério de Anne Pauline
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A PORTA ABRIRA-SE. Finalmente era dada autorização a Anne Pauline para conhecer Marcus Belling.
Para quem conseguia entrar no consultório de hipnose, isso significava que já se tinha passado pelo rigoroso crivo de seleção de Sofia Estelar. A secretária do famoso hipnotizador tinha um ritual, que mantinha há muitos anos. Sempre que alguém iniciava as sessões de hipnose com Belling, ela ficava à espera da pessoa na porta para a cumprimentar pessoalmente, para provar a si mesma que sabia escolher as pessoas certas. As “pessoas certas” eram aquelas que precisavam realmente da ajuda de Belling para ultrapassar os seus traumas ou quebrar hábitos prejudiciais e não apenas as que tinham interesse em aproveitar-se do seu mediatismo. Sofia Estelar sentia alguma vaidade e orgulho, nestas suas funções.
Quando Sofia Estelar viu Anne Pauline, apercebeu-se que era muito mais bonita do que a fotografia que vinha colada no impresso. Impresso esse que era enviado, em forma padrão, para todas as pessoas que solicitavam uma sessão com Belling. Como ela bem sabia, existiam mulheres muito pouco fotogénicas que, no entanto, deslumbravam quando apareciam na Avenida do Sol e estes eram casos a que ela tinha de se manter atenta. Este esquema de ilusão da mente era enganador e não permitia a Sofia Estelar confiar na fotografia que vinha com o papel de registo na consulta. No caso de Anne Pauline, à medida que ela chegava cada vez mais perto, a secretária sentiu um tremor estranho dentro de si. “Não gosto desta sensação”, pensou ela para si mesma. Naquele momento, ela percebeu imediatamente que tinha escolhido a pessoa errada para ter sessões de hipnose com Belling e que, excecionalmente, o seu método de seleção que era uma mistura de intuição, astúcia, inteligência e perspicácia, não tinha funcionado. Alguma coisa tinha falhado naquele processo. Sofia Estelar ficou subitamente amedrontada com aquela constatação. “Estar-me-á a faltar o talento para isto?”, pensou imediatamente.
Era raro a secretária pessoal de Marcus Belling duvidar do seu talento para as funções que desempenhava no consultório há mais de vinte anos. A sua intuição dizia-lhe agora que Anne Pauline Roux era uma pessoa diferente, daquela que inicialmente tinha julgado. Mas já não havia nada a fazer. Anne Pauline percebeu o desconforto que a sua presença causou em Sofia Estelar, mas as duas cumprimentaram-se cordialmente. A secretária de Marcus Belling acompanhou-a então, corredor dentro, até uma das portas onde a esperava o famoso hipnotizador. Sem ainda ter perfeita consciência disso, Sofia Estelar tinha acabado de iniciar, para sempre, a mudança na vida de todos aqueles que trabalhavam na Avenida do Sol. Anne Pauline era uma presença misteriosa. Conseguia sentir isso mesmo de cada vez que falava ou olhava para ela. Naquele instante, arrependeu-se de lhe ter aberto a porta. “Devia ter ficado lá fora”, voltou a pensar.
Quando Anne Pauline entrou no consultório de Marcus Belling, ela deu-se conta que o charme dele era maior do que aquilo que julgava. “Na televisão parece mais alto”, pensou ela para si mesma. Ele recebeu-a com um sorriso agradável e com um gesto afetuoso. Sofia Estelar virou os olhos. Nunca se habituaria ao encantamento das mulheres por Belling, mas fechou a porta atrás de si e deixou-os sozinhos para a sessão de hipnose que estaria prestes a começar.
Quando Marcus Belling viu Anne Pauline mais de perto teve imediatamente um sentimento estranho. A sua afetuosidade e abertura rapidamente se transformou em desconfiança. Era raro isso acontecer pois ele era uma pessoa que estabelecia uma grande confiança com os seus pacientes e, por causa disso mesmo, tinha sido avisado por Maria de Burgos para se resguardar um pouco mais. Isso raramente acontecia. Naquele momento, percebeu imediatamente o significado do olhar que Sofia Estelar lhe deixara antes de fechar a porta. Anne Pauline não tinha reparado, mas aquele olhar angustiado da secretária parecia querer dizer-lhe: “Eu enganei-me”. Belling voltou a repetir a memória deste olhar na sua cabeça: “Esta pessoa pode não ser de confiança”, pensou para si mesmo. Devia, portanto, ter cuidado com ela.
Ainda em silêncio, Marcus Belling estendeu a mão a Anne Pauline e cumprimentou-a de forma cordial. Depois, articulou-lhe pela primeira vez as suas palavras:
– Sente-se, por favor. Bem-vinda ao consultório de hipnose na Avenida do Sol. Neste dia, começa o seu caminho para descobrir o seu passado. – disse, sorrindo.
Naquele momento, a sua paciente continuava em silêncio, quase como que a recordar mil vezes na sua mente aquele breve discurso de Marcus Belling. Aquela voz era-lhe muito familiar, mas tinha dificuldade em perceber de onde lhe vinha aquela sensação. Desta forma, sentou-se no “sofá dos hipnotizados”. Marcus Belling começou por se apresentar a Anne Pauline. Tinha estudado nos Estados Unidos e no Reino Unido, era membro efetivo há mais de quinze anos do Conselho Nacional de Hipnose, uma organização que difundia e promovia as práticas de hipnose no país, e costumava frequentar conferências e palestras sobre hipnose pelo mundo inteiro. Com esta apresentação pretendia, como sempre, desviar a atenção do paciente do seu drama pessoal para aquela sessão, preparando-o assim para construir uma relação de confiança. «A confiança é um pilar fundamental desta relação», costumava dizer Marcos Belling às pessoas que o procuravam. Ele, enquanto hipnotizador, procurava ir ao fundo da alma de cada um, conhecer o outro de uma maneira mais profunda como nunca ninguém tinha experimentado. Talvez, por essa mesma razão, apesar da oposição de Sofia Estelar e de Maria de Burgos, recusava-se por isso a ser menos autêntico do que aquilo que era ou do que demonstrava ser. Do outro lado, algumas vezes nem sempre encontrara a compreensão que esperava receber por parte da equipa que dirigia. «Às vezes pede às pessoas o impossível, Belling. Hoje em dia já ninguém é tão autêntico como pretende que as pessoas sejam», disse uma vez Sofia Estelar cheia de coragem. Lá no fundo, Belling sabia que ela tinha razão.




