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É verdade que Marcus Belling tinha como principal função descer o mais profundo possível à alma de cada, como jamais ninguém tinha tentado. Por essa razão, tornava-se tão importante construir uma relação de confiança com os seus pacientes. O mesmo não sucedia com Josef Salvaterra que apenas se preocupava com o momento da indução em estado hipnótico, escapando da profundidade do espírito das pessoas que o procuravam. Ao contrário, Belling queria conhecer os seus medos, as suas mágoas, as tuas tentações e os seus castigos interiores; de facto, em muitos casos, os seus pacientes recorriam à hipnose para se perdoarem a si mesmos. Esta era uma realidade que Marcus Belling conhecia bastante bem, sobretudo porque era muito bom observador e bastante perspicaz. Desta forma, as pessoas procuravam algumas vezes o seu contacto para partilhar esta sua culpa com outro, acima de tudo alguém que não as julgaria.
Marcus Belling preparou as condições para que Anne Pauline pudesse começar a falar de si e o que a tinha levado a procurá-lo. Foi precisamente essa a primeira pergunta que lhe colocou. Seguiu-se então a resposta.
– Toda a minha vida, desde a minha infância, que sinto que tenho um passado que não compreendo. Durante muitos anos tive lembranças de uma vida que me pareceu ser minha. – explicou Anne Pauline.
– O que me está a dizer, se a compreendo bem, é que a Anne sente que teve várias vidas passadas e que as imagens dessas vidas lhe chegam por exemplo em sonhos? – perguntou Marcus Belling.
– Sim, é isso que estou a dizer. – respondeu.
– Pode parecer-lhe estranho, mas sabia que alguns dos sonhos que a maioria das pessoas têm em vida estão normalmente relacionados com episódios das suas vidas passadas? A maioria nunca chega a saber isto. Apenas quando a vida passada é cheia de eventos que marcaram a nossa memória é que é possível relacionar esses sonhos com uma vida passada, disse Belling.
Anne Pauline mostrava-se interessada e surpreendida com aquilo que Marcus Belling lhe acabara de dizer. Queria isso então dizer, que pelo menos uma fração daquilo que sonhara durante a vida estava intimamente relacionado com as suas vidas passadas. Todavia, ela tivera muitos sonhos durante a sua vida e por isso, tornava-se difícil especificar quais aqueles que se relacionavam com o seu passado desconhecido. Belling percebeu o entusiasmo da jovem pelo tema e prosseguiu.
– Isso acontece a muitas pessoas. A maioria não chega sequer a saber que alguns desses sonhos estão relacionados com vidas passadas. Se no seu caso é capaz de se recordar dessas imagens é porque, de alguma maneira, isso lhe causa uma sensação de desconforto. A Anne Pauline sente esse desconforto porque viveu experiências tão intensas que ficaram guardadas no seu subconsciente. Talvez haja algo no seu passado que ainda esteja pendente para ser esclarecido no seu futuro? – perguntou Belling.
Anne Pauline ficou, por momentos, a pensar naquela questão de Marcus Belling, mas ela não era nenhuma especialista. Não sabia quais as razões por detrás das suas inquietações. Talvez existissem vidas passadas, com momentos traumáticos ou situações que exigiam que ela retomasse a esse mesmo passado. O que era certo é que a sua a angústia era permanente. Queria viver em paz. Belling percebeu que ela não iria responder à sua pergunta. Na realidade, nem pretendia uma resposta. O famoso hipnotizador tentou tranquilizá-la e, para isso, numa tentativa de ganhar a sua confiança, voltou a formular uma nova pergunta:
– Sempre se sentiu assim? – perguntou.
– Sim, sempre vivi num estado permanente de ansiedade e de inquietação. Acho que através da hipnose vou conseguir descobrir o meu passado. – disse Anne Pauline baixando o olhar.
– Por isso veio ter comigo. A Anne Pauline decidiu que quer iniciar a Terapia de Vidas Passadas e pretende encontrar a tranquilidade que precisa para a sua alma. – acrescentou Belling.
– Sim, é precisamente isso. – respondeu a jovem ainda de olhos baixos.
– Gostaria ainda que me pudesse dar alguns exemplos do que acaba de me dizer. Vejo que existe um passado, ou vários passados, que tentam chegar até si, talvez recorrendo ao seu subconsciente. Essa forma de libertação concretiza-se, pelo que me diz, através dos sonhos. Será que me pode contar alguma experiência que tenha tido? – perguntou Marcus Belling.
– Uma noite sonhei com três portas. Decidi abrir uma dessas portas onde estava escrito “Destino desconhecido” e fui puxada para dentro; senti uma enorme sensação de paz e tranquilidade, que apenas conheço dos tempos quando ia viajar no Argo com o meu pai. Quando acordei, tinha a cama cheia de ramagem, ervas e folhas, como se efetivamente já tivesse estado naquele lugar, que me pareceu tão familiar. Era uma planície dourada extensa. – disse Anne Pauline visivelmente emocionada.
- O que é o Argo? – perguntou Marcus Belling.
Marcus Belling não sabia o que era o Argo, mas pôde deduzir que se tratava de uma embarcação de pesca. Pouco ainda sabia acerca do passado da sua nova paciente. Por outro lado, ela manteve-se em silêncio durante algum tempo sem responder à sua questão e o hipnotizador percebeu que o Argo era muito mais do que um barco. Depois, ouviu a resposta de Anne Pauline:
– O Argo é embarcação de pesca da minha família.
Quem iniciava sessões de hipnose com Marcus Belling sabia, desde logo, que aceitava manter uma relação de lealdade com ele. A confiança era um elemento fundamental naquela relação e foi essa mesma ideia que Belling tentou reforçar junto de Anne Pauline. Tinha de existir entre dois uma ligação aberta e transparente. Ao mesmo tempo, Marcus Belling parecia adivinhar tudo o que Anne Pauline pretendia dizer. À medida que ela falava mais sobre si e sobre o “seu” mundo desconhecido, Belling ia sentindo uma inquietação interior cada vez maior. Uma vez mais, voltou a lembrar-se do olhar angustiado de Sofia Estelar. Até àquele momento a conversa com Anne Pauline tinha decorrido com toda a naturalidade. Era uma jovem de vinte e cinco anos que precisava da sua ajuda para compreender se o passado tentava de alguma forma enviar-lhe uma mensagem através da sua mente.
Anne Pauline ainda não conhecia bem a história profissional do famoso hipnotizador, mas a verdade é que apenas nos últimos doze anos de carreira, é que ele se tinha dedicado à regressão. Na realidade, ele era especialista em hipnose clínica, mas ao longo dos anos foi desenvolvendo o seu interesse pela Terapia de Vidas Passadas: a partir daqui, compreendeu que era igualmente possível tratar sintomas graves, tanto físicos como psicológicos (depressões e outros distúrbios) recorrendo à regressão. Mas alguns colegas hipnotizadores continuavam a duvidar do sucesso desta terapia, o que por vezes tinha gerado algumas convulsões de ideias e teorias dentro do Conselho Nacional de Hipnose.
Era agora pouco o tempo que Belling dedicava à hipnose clínica. Tendo começado a afastar-se da investigação nesta área, mantinha algum acompanhamento junto das crianças nos hospitais. Através da hipnose, o famoso hipnotizador ajudava-as a ultrapassar os seus traumas e as suas ansiedades. Belling deixou então o seu pensamento para trás. Estava na altura de explicar a Anne Pauline quais os propósitos, as condições e os métodos terapêuticos usados nas suas sessões de hipnose:
– Antes de mais, para que saiba, a hipnose é um estado mental que é usualmente induzido por um procedimento conhecido como indução hipnótica, já deve ter ouvido falar. O estado hipnótico corresponde às chamadas ondas alfa que estão associadas a um estado de calma e de recetividade. É por isso que, durante o transe, as pessoas se sentem bastante mais calmas. É isso que vamos fazer nas nossas sessões Anne Pauline. Vou induzi-la num estado hipnótico, mas sempre num ambiente controlado.
Anne Pauline ouvia atentamente o que Belling tinha para lhe dizer. O famoso hipnotizador prosseguiu:
– No caso específico da Terapia de Vidas Passadas, que pressupõe o uso da hipnose, a Anne Pauline irá regressar a um passado ou a vários passados que estão para além do limiar da sua vida atual. A partir daqui nós conseguiremos chegar ao que apelidamos de “memória extra-cerebral”. Ao atingirmos este reservatório de memória, será possível chegar ao núcleo do seu trauma e o seu inconsciente poderá libertar o material psíquico, a chamada catarse. Poderemos, nesta fase, compreender os traumas que ficaram encerrados no seu passado e libertar essas memórias. A partir desse momento, irá sentir um alívio significativo dos seus sintomas. – concluiu Marcus Belling.
– E tudo o que eu contar aqui, o que acontece a essa informação? – perguntou Anne Pauline.
– Nas minhas sessões de hipnose eu comprometo-me a manter a confidencialidade de todos os assuntos que são discutidos com os meus pacientes. Neste sentido, eu e os meus colegas hipnotizadores trabalhamos dentro do âmbito da lei; que, neste caso, é o Código de Ética do Conselho Nacional de Hipnose. – respondeu Belling.
Anne Pauline tinha ouvido e compreendido perfeitamente tudo o que Marcus Belling lhe tido dito. Sem confessar, ela nunca tinha acreditado verdadeiramente nos efeitos terapêuticos da hipnose. Contudo, ao longo dos anos, à medida que a medicina tradicional não lhe conseguia providenciar uma solução para os seus anseios, ela começara a ver na hipnose uma alternativa para a sua cura. Naquele dia, ao ouvir Belling falar sobre a Terapia de Vidas Passadas compreendeu, imediatamente, que tinha tomado a decisão mais acertada. Marcus Belling era a única pessoa que a podia ajudar. Ainda assim, quando pensava em ser hipnotizada, não conseguia deixar de não se sentir assustada. Eram muitas as questões que tinha na sua cabeça. Como seria estar hipnotizada? Será que entraria noutra dimensão? Será que se podia chamar ao transe hipnótico uma experiência de quase morte? E se Belling morresse durante uma das sessões, seria ela capaz de acordar do transe? Como muitas pessoas, Anne Pauline tinha as suas superstições e os seus receios. Por um lado, ela tinha medo de que os segredos do seu passado fossem revelados. Sem filtros, tudo ficaria a descoberto. Por outro lado, não queria que a sua história pessoal fosse do conhecimento de qualquer um. Várias vezes teve de repetir para si mesma: “Vou confiar, vou confiar”. Desta vez ia confiar. Marcus Belling disse-lhe então:
– Gostaria apenas de reafirmar que para um hipnotizador é bastante importante saber o que acontece com o seu paciente durante o transe hipnótico. Este estado é induzido através do poder da sugestão. Nesta fase, apenas o paciente me poderá dizer o que está a ver, a sentir e a ouvir. Peço-lhe por isso que confie em mim.
O pedido parecia simples. Apesar disso, como Anne Pauline iria perceber uns meses mais tarde, esta frase de Marcus Belling iria deixá-la num profundo dilema. Todavia, naquele momento, ela nada tinha a recear. O famoso hipnotizador tinha a sua ética profissional e estava obrigado ao sigilo relativamente a tudo aquilo que se passava com os seus pacientes, no seu consultório. Esta seria a primeira sessão de hipnose, uma de muitas ao longo de nove meses, de Anne Pauline com Marcus Belling. O que os dois iam descobrir daqui para a frente ultrapassava os limites da sua imaginação e, em caso algum, poderiam estar preparados para as revelações que iriam acontecer nos próximos meses.
A confiança entre hipnotizado e hipnotizador era fundamental para o sucesso da terapia. Sem a existência desta, não seria possível garantir que o paciente fosse capaz de superar os anseios causados pelas suas vidas passadas. Contudo, existia um receio compreensível por parte de alguns pacientes em reportar tudo aos hipnotizadores o que se passava durante o transe hipnótico; algumas memórias eram muito profundas e intensas. Para além disso, existiam alguns casos reportados em que a ética profissional tinha sido violada. Nestas situações, o Conselho Nacional de Hipnose aplicava os devidos processos disciplinares a todos aqueles que quebrassem a sua deontologia profissional. Um desses casos era o de Josef Salvaterra.
“O caso Salvaterra”, como ficou conhecido, parecia uma obra de ficção. Há alguns anos, procurou-o um banqueiro já reformado para compreender o sentimento de culpa que o tinha perseguido, de forma inexplicável, toda a sua vida. Tal como ele explicou, sempre tinha vivido uma vida honrada, com a família e amigos e não existia nada que o envergonhasse. Aliás, a honra era um valor fundamental que norteava toda a sua vida. Contudo, por alguma razão, considerava que ela não estava intacta na sua alma e queria perceber as razões por detrás desta sua estranha intuição.
Ao fazer a regressão a uma das suas vidas passadas, o banqueiro percebeu que tinha sido um foragido, alguém que vivia a fugir da justiça e que sobrevivia como podia. Um dia, contudo, encontrou as coordenadas para um tesouro que teria pertencido a um homem que falecera deixando uma riqueza incalculável. Uma parte dessa riqueza tinha sido enterrada num local secreto, juntamente com alguns outros pertences. O banqueiro localizou o tesouro, mas foi morto por outros que tentavam também apropriar-se do mesmo. Interessado naquela história, Salvaterra pediu então as coordenadas do dito tesouro ao banqueiro reformado, quando ele ainda se encontrava em transe hipnótico. Josef Salvaterra estava seguro de que iria encontrar aquele tesouro. Depois de obter estas informações, foi ele próprio à procura do mesmo. O tesouro de facto existia, mas já tinha sido desenterrado há muitos anos e fazia agora parte de uma coleção privada do museu da cidade. No entanto, o banqueiro tomou conhecimento das ações de Josef Salvaterra e reportou a situação ao Conselho Nacional de Hipnose. Durante três meses, Salvaterra não pôde abrir o seu consultório, perante a angústia de Marbella que julgava que tinha chegado o seu fim. Iriam os dois cair na miséria!
Nem Salvaterra nem Marbella caíram na miséria por causa desse episódio, mas o hipnotizador nunca mais tentou a sua sorte. A deontologia profissional tinha sido violada e rapidamente a história chegou aos ouvidos de Marcus Belling e de toda a sua equipa de trabalho. Como sempre, Belling não se mostrou surpreendido com a atitude do seu rival. Agora, enquanto ouvia a história pessoal de Anne Pauline, recordava-se de todos os contornos do chamado “caso Salvaterra”. Era incrível, mas já tinha passado uma hora desde que a jovem mulher tinha chegado ao consultório da Avenida do Sol e a sessão estava assim concluída. Nisto, o famoso hipnotizador disse:
– Fale com a Sofia Estelar para marcar uma nova sessão de hipnose. Lembre-se do que falámos hoje. Um caso novo é sempre um início também para mim na hipnose.
Belling jamais poderia imaginar como aquela frase continha toda a verdade acerca de Anne Pauline e si próprio. Por outro lado, a sua paciente agora olhava-o fixamente, sem compreender de onde vinham aquelas palavras. Aquele tom de voz era-lhe familiar e só agora é que tinha a certeza disso! Era cada vez mais claro que ela já tinha ouvido aquela voz em algum lado e depois de pensar um pouco, finalmente percebeu que aquela voz provinha do homem dos seus sonhos! Este era aquele homem que tinha questionado a sua dignidade e a sua honra, enquanto lhe pedia para regressar ao passado. Com esta certeza, Anne Pauline ficou assim a saber que esse homem era muito provavelmente, Marcus Belling!
Anne Pauline despediu-se de Belling e agradeceu as suas explicações acerca da hipnose e da Terapia de Vidas Passadas. Algo de muito intenso invadia agora a sua alma. Por um lado, ela estava ansiosa para iniciar esta nova jornada na hipnose, mas, por outro, não a pretendia realizar com aquele homem dos seus sonhos. Anne Pauline estava num dilema, mas sabia que, no dia seguinte, voltaria ao consultório.
2
Quando fechou a porta do gabinete, Sofia Estelar estava sentada à receção a tratar de documentação. Na verdade, fingia-se ocupada. Sofia olhou Anne pelo canto do olho e viu-a desaparecer no corredor. Não a quis cumprimentar quando ela se foi embora. Estava arrependida de ter levado Anne Pauline até Marcus Belling. “Como é que me pude enganar desta forma?” pensava para si mesma. Quando ouviu o som da porta a fechar-se, sabia que tinha de ir ter com Marcus Belling para o avisar da estranha sensação que tivera em relação àquela pessoa. Normalmente não se costumava enganar. Quando alguém pedia uma sessão com Belling, ela sabia avaliar bem essa pessoa e a ela lhe cabia a decisão se a deveria, ou não, levar até ao famoso hipnotizador. Belling contava com a intuição e a inteligência da sua secretária para levar a cabo o seu trabalho com segurança. Efetivamente, existiam motivos de receio. Muitos eram os intrusos que tentavam violar a sua privacidade, tirando fotografias às escondidas com máquinas que traziam ocultamente consigo ou, no limite, usando a chantagem para atingir certos objetivos (como, por exemplo, exigindo o pagamento de somas avultadas em dinheiro para não divulgarem certos aspetos da sua vida aos jornais). De facto, Sofia Estelar nunca se esquecia que, uma vez iniciada uma sessão de hipnose, a pessoa passaria a ter um contacto regular com o famoso hipnotizador. Durante vários meses, os pacientes ficariam a conhecer Belling, os seus hábitos, a sua forma de estar, a sua maneira de trabalhar, ou seja, um pouco da sua vida. Por essa razão, tornava-se importante saber que casos podiam ser levados ao conhecimento de Marcus Belling. Daí a importância do papel desempenhado por Sofia Estelar.
Sofia Estelar conhecia bastante bem Marcus Belling. Esse conhecimento advinha não apenas dos largos anos em que já trabalhava com o famoso hipnotizador, mas igualmente, porque ela própria já tinha sido hipnotizada por ele. De certa forma, ela tinha sido, até àquele momento, cética quanto aos efeitos da hipnose, embora nunca o tivesse confessado. Ela sabia que essa confissão iria entristecer Marcus Belling.
Essa experiência de hipnose tinha ocorrido há vários anos e nessa altura, foi ele que lhe dirigiu pessoalmente esse pedido. Há dez anos que Belling praticava a Terapia de Vidas Passadas, quando num certo momento da sua carreira, sentiu que precisava de testar com alguém de confiança, se as crenças e os mitos poderiam influenciar as lembranças que as pessoas tinham do passado. Esta ideia tornou-se um verdadeiro desafio. Tudo porque existia uma corrente interna no Conselho Nacional de Hipnose que rejeitava a Terapia de Regressão como forma de tratamento de diversos sintomas e distúrbios. Nesse aspeto, Salvaterra e Belling distinguiam-se de alguns dos demais colegas do Conselho. Os dois usavam frequentemente a hipnose na regressão, mas existiam alguns hipnotizadores que recusavam a existência do efeito terapêutico neste tipo de terapia. Esses mesmos hipnotizadores defendiam que, essas recordações das vidas passadas, mais não eram do que desconexões no sistema de memória pois o ser humano usava as suas experiências pessoais e as suas crenças para recriar imagens de um passado que nunca tinha existido.
Nem Marcos Belling nem Josef Salvaterra tinham tido alguma vez a oportunidade de refutar estas teorias. Por um lado, ignoravam estes argumentos, mas por outro, quando se impunha defender o seu trabalho, perante a opinião pública, tentavam confirmar através de casos reais que a Terapia de Regressão funcionava nos seus pacientes. Existia assim um certo descrédito relativamente a esta área da hipnose por parte de alguns hipnotizadores e, por essa razão, Belling lembrou-se de realizar um teste com Sofia Estelar. O objetivo era tentar induzir um conjunto de crenças e mitos enquanto Sofia estivesse em transe hipnótico, numa primeira sessão. Na segunda sessão, usando a Terapia de Regressão, pedir-lhe-ia para se recordar das suas vidas passadas recorrendo, para tal, à chamada memória extra-cerebral. Marcus Belling teria assim a oportunidade de testar a eficácia desta terapia, embora não fosse sua intenção divulgar os resultados desta sua experiência. Ele próprio, apesar de totalmente convicto de que esta funcionava, e que não se tratava de uma falha no sistema de memória, necessitava desta última confirmação. Quando Sofia Estelar se sentou no sofá verde do gabinete para ser hipnotizada, algo de extraordinário aconteceu; sem nunca perder o contacto com o exterior, ela entrou rapidamente em transe hipnótico. De facto, ela não estava à espera de ser hipnotizada por Belling com tanta facilidade. Contudo, através das técnicas e da larga experiência do famoso hipnotizador, a sua secretária mergulhou rapidamente num profundo transe, sem que se tivesse apercebido disso. Apesar de trabalhar com ele há mais de vinte anos, ela nunca tinha pensado seriamente na questão: o que o levava a ser um hipnotizador tão reconhecido? Ela conhecia a sua dedicação à profissão, mas ainda não tinha assistido à demonstração do seu talento inato. A partir daquele dia, Sofia Estelar percebeu porque é as pessoas o procuravam com tamanha ansiedade. O teste foi um sucesso. Marcus Belling conseguiu demonstrar (nem que fosse para si mesmo) que apesar das crenças introduzidas na primeira sessão de hipnose, tal não tinha influenciado a sua secretária quando às suas reais recordações das suas vidas anteriores. Inclusivamente, ela era capaz de se lembrar de uma relação que mantivera com um homem que parecia estar ligado à tipografia e surgiu-lhe um nome na mente: “Christopher Beck”. Ao ler algumas páginas sobre este tipógrafo, Belling percebeu que a sua secretária tinha regredido a uma época de onde poderia extrair memórias concretas. Ao ouvir as suas palavras, ele apercebeu-se que tudo o que lhe estava a ser reportado era absolutamente autêntico. Não existia ali uma mácula de contaminação pelo facto de ele lhe ter introduzido um conjunto de ideias pré-concebidas que poderiam prejudicar a sua memória extra-cerebral. Esta experiência reforçou assim a vontade de Belling de continuar a praticar a Terapia de Regressão, sem deixar que o seu trabalho fosse colocado em causa por alguns colegas da sua classe profissional. Na realidade, o teste serviria apenas para reforçar as suas convicções. Uma vez mais, nunca fora sua intenção divulgar os resultados destes testes, tendo apenas comentado o sucedido com a sua mulher, Patricia Murio.
Patricia Murio tinha ficado bastante surpreendida com a coragem do marido para levar a cabo esta experiência. Ela conhecia-o bastante bem, mas jamais poderia supor que ele iria recorrer a Sofia Estelar para comprovar as suas teorias. Por outro lado, Sofia Estelar ficou marcada com esta experiência da hipnose. Deste modo, não apenas confirmou a competência de Marcus Belling, como também o efeito terapêutico da Terapia de Regressão. A verdade é que logo após esta sessão sentiu uma tranquilidade enorme. Parecia que as lembranças se tinham libertado de um mundo espiritual que sobrecarregavam a sua alma e que agora vagueavam soltas fora do seu inconsciente. Sofia Estelar considerava-se bastante racional pelo que, não tivesse sido esta sessão de hipnose com Belling, a verdade é que continuaria a alimentar o seu ceticismo relativamente à hipnose e à Terapia de Vidas Passadas. Quando ela viu Anne Pauline a fechar a porta do gabinete, lembrou-se rapidamente de todos estes episódios do seu passado. Sofia Estelar correu então para falar com Marcus Belling. Tinha um olhar impaciente. Ele não a deixou tomar a iniciativa da conversa e tomou o rumo do discurso:
– Sofia, tive uma sensação estranha com esta pessoa. Depois de me teres devolvido aquele olhar na porta posso deduzir que sentiste o mesmo? – perguntou.
– Tenho de confessar que da primeira vez que a vi tive logo uma sensação estranha. Não consigo deixar de pensar que sou capaz de me ter enganado relativamente a esta pessoa. Por norma isso não costuma acontecer. De alguma maneira, tenho a sensação de que já a conheço. Já me arrependi muito de lhe ter aberto a porta. – disse Sofia Estelar.
– Não vale a pena ficares assim. Não te disse isto para te sentires culpada. – respondeu Belling, tentando tranquilizá-la.
Marcus Belling e Sofia Estelar estavam seguros neste ponto. Tanto um como o outro, tinham tido uma sensação estranha quando viram Anne Pauline pela primeira vez. Os grandes olhos verdes brilhantes desta jovem pareciam esconder um passado difícil de ser revelado, ou talvez demasiado complexo e traumatizante. Inevitavelmente, colocava-se a questão. Deveria Marcus Belling prosseguir as sessões de hipnose com aquela pessoa? Os dois pensavam no mesmo, mas foi Sofia Estelar que avançou com a pergunta:




