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– Acha uma boa ideia ela regressar cá mais vezes?
A pergunta de Sofia Estelar exigia um rápido esclarecimento da situação por parte do famoso hipnotizador, mas por outro lado ela sabia que o estava a colocar num dilema complicado de decidir. Talvez não fosse mesmo justo. De qualquer forma, foi o seu sentimento de responsabilidade naquela situação que lhe impulsionou a pergunta. Belling tinha a sua própria ética profissional, nunca se recusando a continuar uma sessão de hipnose a um paciente que o procurasse no seu gabinete da Avenida do Sol. Efetivamente, fazia parte dos seus princípios profissionais não negar a ajuda a quem dela precisasse. Desta forma, a decisão estava tomada. Ele iria até ao fim. Nunca tinha acontecido durante a sua carreira recusar o auxílio a um paciente e, apesar da estranha sensação que Anne Pauline lhe tinha provocado, Belling decidira assumir o risco da sua tomada de posição. Sofia Estelar compreendeu o seu dilema pessoal. Afinal de contas, ela era a sua secretária pessoal ainda que existisse uma relação de cumplicidade entre ambos de vários anos. A decisão final pertencia sempre a Marcus Belling.
Neste quente dia de julho, o dia ficara assim marcado por dois importantes acontecimentos. Por um lado, o aparecimento da misteriosa Anne Pauline, por outro, o teste final às convicções pessoais de Marcus Belling. Sofia Estelar sabia-o com segurança. Belling queria continuar a terapia com Anne Pauline, libertá-la dos seus dramas e dos traumas e, assim, através da hipnose, levá-la por um caminho de felicidade que ela nunca tinha experimentado. Como sempre, sem exceção, ele encarava o seu trabalho com espírito de missão pública, mas como toda a equipa já sabia através de situações anteriores, existiriam consequências para esta forte tomada de posição. Todavia, nada os podia preparar para o que estava prestes a suceder nos próximos meses.
Enquanto tudo isto se passava no n.º 27, a Avenida do Sol fervilhava em movimento e vida. Anne Pauline saiu do gabinete de Belling calcorreando a larga avenida que, de um lado e do outro, estava repleta de restaurantes, cafés e esplanadas decoradas num estilo vitoriano. Ao longo da avenida existiam ainda imensas fontes de água que, no verão, faziam as delícias das crianças. O prédio onde estava localizado o gabinete de Marcus Belling ficava quase exatamente a meio do percurso da conhecida avenida. Tratava-se de um magnífico prédio antigo do século XVIII, de linhas brancas e robustas, com tetos pintados e paredes recortadas com figuras da época barroca. Quando Anne Pauline desceu pela avenida naquele dia, Marcus Belling e Sofia Estelar não demoraram muito tempo a descer as escadas do prédio para irem almoçar num dos restaurantes na bela Avenida do Sol.
Recuando ao gabinete de Belling, este conservava na sua biblioteca um extenso espólio de livros sobre hipnose, como Anne Pauline tinha reparado. No entanto, ele não se interessava apenas pela hipnose, pois era um homem multifacetado, curioso por vários domínios do saber. Ao longo dos últimos anos, ele tinha vindo a interessar-se por temas como a ligação entre a medicina e a astrologia, o efeito terapêutico e medicinal das plantas, o poder curativo da fé, a alquimia e a ciência experimental. De uma maneira geral, ele considerava que o conhecimento sobre os minerais e as plantas poderiam providenciar com a sua utilização prática um efeito terapêutico que não deveria ser menosprezado. Marcus Belling encarava a medicina natural e homeopática como uma forma de terapia, não menos válida do que a própria hipnose. Por essa razão, considerando que as duas serviam os mesmos propósitos, começou a estudar meios de as aplicar simultaneamente em benefício dos seus pacientes. Por outro lado, dado ter iniciado a sua carreira no campo da hipnose clínica, Belling decidiu aproveitar a sua experiência profissional desses anos para praticar a Terapia de Vidas Passadas com um outro nível de saber e especialidade. Assim sendo, era possível encontrar na sua biblioteca particular livros sobre experiências químicas, receitas experimentais de alquimia, fitoterapia, regressão e poder curativo do corpo e da mente, medicina, zodíaco e botânica oculta. Todos estes livros constituíam uma fonte de inspiração diária para o seu trabalho diário (o que nem sempre era compreendido por Sofia Estelar).
Marcus Belling era igualmente apaixonado pela literatura mundial e não apenas por livros técnicos: a ele interessava-lhe qualquer tipo de literatura desde que pudesse recorrer a esta para se tornar num melhor hipnotizador. Por essa razão, chegou a passar algumas temporadas na biblioteca municipal da cidade, onde inclusivamente trocou algumas palavras com Georgine Gunderson. Alguns dias mais tarde, a bibliotecária seria destacada para trabalhar na antiga biblioteca nacional. Na realidade, através da leitura de diversos livros, de ficção ou técnicos, ele podia sempre reter uma boa ideia que às vezes utilizava nas suas sessões de hipnose, sobretudo nos casos mais complicados. Por vezes, o estudo teórico não era suficiente para resolver certos traumas das vidas passadas: era preciso viajar pelo mundo e por diversas experiências, ainda que por vezes apenas através dos livros. Um bom exemplo disso era o livro de Aldous Huxley intitulado, “O Admirável Mundo Novo”: com ele Belling desenvolvera o seu espírito crítico, fundamental ao longo da sua carreira. Através desta leitura ele questionava agora as técnicas padrão usadas na hipnose e sugeria novas abordagens. A paixão por este livro em particular, que começou na adolescência, fascinava-o pela sua oposição aos ideais de construção de uma sociedade padronizada, regida pela ilusão do progresso, sem noções do passado e de conceitos fundamentais como a moral e a família. Uma sociedade que era dividida em castas e os seus membros regidos pelos mesmos aspetos genéticos e psicológicos, permanentemente condicionados pelas mesmas regras sociais. Pouco a pouco, enquanto se interessava cada vez mais hipnose, teria sempre a tendência, naturalmente, para pensar neste livro. Como Belling nunca esquecia um bom livro e usava todas as ideias dos escritores para perceber melhor qual era o seu papel no mundo, foi percebendo com os anos que, a hipnose em si, constituía uma forma muito valiosa de as pessoas olharem para si próprias sem estarem condicionadas às convenções sociais. A hipnose era assim sinónimo de liberdade. A noção de liberdade neste campo foi assim sendo trabalhada por Marcus Belling ao longo de mais de vinte anos de prática profissional onde, para além da confiança, a destacava como valor fundamental da sua deontologia.
Na visão de Belling, a hipnose era uma ferramenta de poder para poder ver mais além da própria alma. De facto, mais para além dos limites da sua própria sociedade, da ilusão do progresso e das normas sociais estabelecidas. Ao longo dos anos, o hipnotizador começou assim a transmitir às pessoas uma ideia poderosa que às vezes poderia colocar em causa a sua própria carreira: a ideia de que as pessoas são responsáveis pelo seu destino e que têm a capacidade de mudar a sua trajetória de vida, ainda que com a ajuda de um hipnotizador. Nesse sentido, Belling foi pioneiro na sua área ao reconhecer às pessoas que elas podiam ser detentoras de um instrumento de poder e de mudança que estava totalmente ao seu alcance. O hipnotizador apenas ajudava nesse processo de descoberta. No fundo, era disso que se tratava. Todos quanto procuravam Belling vinham à procura da felicidade e Anne Pauline não era uma exceção.
Mas o Conselho Nacional de Hipnose não aprovava totalmente a mensagem e a postura de Marcus Belling face ao seu próprio papel profissional. Alguns colegas hipnotizadores mais envolvidos no Conselho já o tinham avisado de que ele estaria a criar falsas expectativas nas pessoas, fazendo-as incorrer no erro de que um hipnotizador era dispensável no seu processo de tratamento. O Conselho encarava assim esta atitude como uma forma de menosprezar o crucial papel desempenhado pelos profissionais que representava e, por várias vezes, pediu algum refreio a Belling nas suas palavras. A este propósito, várias vezes, tinham-lhe chamado a atenção: «Daqui a pouco as pessoas começam a fazer auto-hipnose em casa. Já ninguém consulta um hipnotizador, se continuar a dizer essas coisas». Embora respeitando a recomendação do Conselho, Marcus Belling continuava firme na sua forma de trabalhar.
A abordagem de Marcus Belling não incomodava apenas o Conselho Nacional de Hipnose, mas também Josef Salvaterra. Na realidade, num programa de rádio há vários anos, Salvaterra desferiu um duro golpe a Belling ao afirmar que o colega andava a enganar as pessoas com discursos proféticos. Para ele, o papel do hipnotizador não era substituível, «pois por vezes as pessoas precisam de alguém que as guie». Esta última frase foi dita num programa de rádio sobre hipnose e originou uma avalanche de chamadas de pessoas que exigiam falar com Salvaterra. «Devem ser fans loucos de Belling», disse Salvaterra em tom de brincadeira para o locutor de rádio.
Neste sentido, também em parte pelo seu distanciamento em relação à postura defendida por Belling, Salvaterra possuía um estatuto diferente dentro do Conselho; este era mais interventivo, apesar da sua imagem ter ficado enfraquecida durante vários meses com o “caso Salvaterra”. Gradualmente, Marcus Belling foi criando os seus próprios métodos de trabalho, cada vez mais distantes e inovadores face ao que era recomendado pelo Conselho, para grande entusiasmo dos seus pacientes.
Salvaterra e Belling começaram a distanciar-se um do outro, mesmo dentro do próprio Conselho. Josef Salvaterra, ao contrário de Belling, tinha outras ambições que não apenas tornar-se no mais conceituado hipnotizador do país. Ele almejava um novo estatuto no seio do Conselho Nacional de Hipnose que lhe pudesse conferir uma vantagem no meio da sua classe profissional. Por essa razão, na última reunião, ele candidatara-se a Presidente da Assembleia Geral; Salvaterra pretendia gerir os destinos da organização e, com isso, afastar Belling do seu protagonismo. A única forma de isso acontecer passava por controlar a gestão da organização o que internamente significava deter o poder sob todo o Conselho. Contudo, Salvaterra teve poucos votos aquando das eleições o que gerou, da sua parte, uma enorme indignação. Foi conturbada a situação que se seguiu. Josef Salvaterra demonizou todos os seus colegas chamando-os de “ignorantes” e prometeu dirigir uma reclamação para o Comité Internacional da Hipnose alegando que existira fraude nas eleições. Uns dias mais tarde, para espanto de todos, Marbella apareceu nas instalações do Conselho, durante uma das reuniões da Assembleia geral, tentando nessa altura imiscuir-se em assuntos de gestão interna: ela pretendia saber qual o valor das receitas arrecadadas com o pagamento das quotas anuais ao Conselho.
A ganância de Marbella era conhecida por todos. O referido episódio com as quotas foi contado entre todos os hipnotizadores, dando conta que nesse dia a mulher de Salvaterra fora colocada no exterior das instalações do Conselho perante a sua própria indignação. Por essa razão, Marbella Gorey era conhecida como a “toupeira” porque conseguia cheirar o dinheiro onde quer que ele se encontrasse e a larga distância. Era um facto, que ela era capaz de se munir de todos os recursos possíveis se estivesse em causa dinheiro e algo não deixava de a incomodar: o marido não ganhava uma fortuna. Marbella e Salvaterra viviam razoavelmente bem, mas sem grandes luxos e, por essa razão, a única forma de atingir certos objetivos era recorrer a meios pouco éticos. Para prejudicar Marcus Belling e afastá-lo dos meios de comunicação, ela estaria disposta a fazer quase tudo. Por mais de uma vez que o tinha tentado. Contudo, a intervenção rápida de Maria de Burgos evitara a publicação de notícias caluniosas acerca do famoso hipnotizador. Mas, desde há meia dúzia de anos atrás, que Marbella contava com a ajuda de um cúmplice chamado Alfonso Rúbio, o filho de uma prima que se via sempre constantemente envolvido em furtos e na pequena criminalidade. Tinha apenas vinte e três anos, mas um cadastro completo nas mais variadas atividades de delinquência. Considerado como um “caso perdido”, Alfonso por vezes aceitava colaborar com Marbella (por um “preço económico”) para difundir algumas informações que ela achava fundamental para acabar com o mediatismo de Belling ou para outro tipo de atividades de ética duvidosa. Alfonso deixava-se comprar por pouco, o que era um excelente negócio para Marbella que o considerava ideal para a concretização de alguns dos seus planos. Contudo, esta cumplicidade já não existia no dia em que Anne Pauline tocou à porta do gabinete de Marcus Belling, pois Alfonso tinha desaparecido há algum tempo.
Marcus Belling parecia imune a tudo isto. Talvez porque se encontrava rodeado de uma equipa leal que tinha montado um aparelho logístico complexo que lhe permitia viver exclusivamente dedicado à sua profissão. Um dia, numa conferência internacional, alguém lhe dissera:
– O Belling acredita na hipnose. É quase como se tivesse uma espécie de fé dentro de si, quase inabalável. Também já tive esse tipo de ilusões.
«Não julgue que seja possível saber tudo acerca de um mundo a que apenas acedemos através da nossa mente», disse-lhe uma vez um colega.
– Acredito no meu trabalho. – limitou-se a responder Belling.
Nem todos os hipnotizadores estavam convencidosque a hipnose constituísse uma terapia eficaz para as pessoas, muito embora fizessem dela a sua carreira. Parecia uma contradição, mas alguns profissionais na área não acreditavam naquilo que faziam. Ao contrário, Marcus Belling era um inconformado. O famoso hipnotizador tentava manter-se fiel a si mesmo. Este não tinha sido, contudo um trajeto fácil e com o passar dos anos, de forma quase inevitável, começaram a surgir dúvidas acerca de si mesmo, do seu trabalho e da sua missão na vida. Por isso mesmo existiam alturas em que ele precisava de todo o recolhimento possível para voltar a acreditar nas suas convicções. Sem elas, não existia Marcus Belling nem uma carreira. Ele sabia por outro lado que existiam muitas crenças limitativas em torno da hipnose que eram simplesmente inventadas através da difusão de mitos supersticiosos ou pelos meios de comunicação. Nestes casos, era difícil desmontar o engano. O famoso hipnotizador ainda não sabia, mas Anne Pauline iria marcar a sua vida. Antes mesmo de ela entrar no consultório da Avenida do Sol, Belling recordava-se de um dos casos mais marcantes na sua carreira que lhe devolvera a segurança interior de que a prática da hipnose teria de ser encarada com um espírito de missão pública.
Um dia, uma mulher chamada Carla veio ter com Belling relatando distúrbios de sono. Com o passar dos anos, sem tratamento à vista, esses mesmos distúrbios evoluíram para o sonambulismo, para grande receio do filho que a ouvia à noite, sozinha, a caminhar pela casa. Sendo mãe solteira, raramente tinha um trabalho estável, vivendo num anseio constante, que não lhe permitia adormecer, durante dias seguidos. Foi então que Carla pensou em recorrer à hipnose e, portanto, a Marcus Belling. Ela sabia que era difícil conseguir uma sessão com ele, tal era a fila de espera que existia e que era do conhecimento público. Decidiu, contudo, tentar a sua sorte. Sofia Estelar considerou-a um caso prioritário e, devido às suas dificuldades económicas, após confirmação da sua situação pessoal, o preço das sessões foi diminuído para ela prosseguir o seu tratamento. De facto, o consultório praticava uma tarifa especial para estas situações e tinha sido Belling a instruir Sofia Estelar para ter em consideração este tipo de circunstâncias na sua tabela de preços. Pragmático por um lado, caridoso por outro, o famoso hipnotizador era sensível às situações de carência económica de quem o procurava e tinha montada uma logística para dar apoio e uma rápida resposta aos casos mais sensíveis.
Carla confessou a Marcus Belling, que tinha medo de recorrer à hipnose para curar o seu problema de sonambulismo. Será que ia ficar também sonâmbula durante o transe hipnótico? Ele tranquilizou-a. Este era apenas um mito e ela não tinha razões para ter medo do que pudesse acontecer durante esse período pois ela encontrava-se num ambiente controlado. Com o tempo, Carla foi tendo cada vez mais confiança com Belling e sentindo-se mais confortável, deixou-se levar para um estado mais profundo de transe. O famoso hipnotizador começava sempre por lhe dizer:
– A Carla imagine agora que está numa posição muito confortável... respire profundamente... sinta o seu corpo a descontrair... feche os olhos... imagine agora que é Robinson Crusoe e que está numa ilha deserta... o mar bate nos seus pés e as ondas trazem consigo o cheiro da maresia... respire profundamente e sinta os seus olhos a fecharem-se lentamente...
Uma vez mais, Marcus Belling auxiliava-se da literatura para ajudar os seus pacientes a ultrapassar os seus problemas internos usando para tal passagens ou personagens desses livros. Era assim que funcionava o poder da sugestão. Neste caso, a leitura da obra de Daniel Defoe ajudou-o a criar uma poderosa metáfora com Carla, sugestionando durante o transe hipnótico, que ela era Robinson Crusoe, que se encontrava sozinha numa ilha deserta, tendo de usar os recursos disponíveis para reconstruir a sua vida. Tratava-se acima de tudo de lhe devolver a confiança que tinha ficado abalada durante a sua vida.
No caso de Carla foi Robinson Crusoe quem lhe salvou a vida. Em algum dado momento, pensou Belling para si, o herói desta história que se havia salvo a si próprio da morte e da privação, teria um destino maior: o de salvar outros que estão na mesma situação. «Que outro destino, melhor do que este, poderia ser dado a esta personagem?», pensou Marcus Belling para si próprio. Assim, durante meses sucessivos, Carla imaginou que se encontrava numa ilha deserta e no meio do silêncio recuperou finalmente dos seus anseios. Foi assim, com esta poderosa metáfora, que ela superou os seus distúrbios de sono ganhando uma qualidade de vida que nunca tinha tido. Na última sessão, Marcus Belling aproveitou então a oportunidade para lhe dizer:
– O que eu espero daqui para a frente é que possa encontrar a sua felicidade e plenitude interiores. A nossa alma apenas se compreende a ela própria quando começamos a olhar para dentro de nós. – finalizou Belling.
Carla tinha acabado de acordar. Na realidade, ela foi acordando para a vida e foi assim que os problemas de sonambulismo acabaram por desaparecer. O sono era agora repousante e revitalizante. Sendo um dos casos de maior sucesso da sua carreira, ela acabaria por se tornar uma amiga próxima de Sofia Estelar, e era visita frequentemente do consultório na Avenida do Sol.
Na sua última sessão de hipnose, e quando saiu do gabinete, Carla percorreu a pé a avenida, curada dos seus sintomas. Procurou ali perto, imediatamente, um alfarrabista onde viria a comprar uma versão antiga do livro de “Robinson Crusoe”, de Daniel Defoe e lendo-o até à exaustão, retirou bons ensinamentos que a ajudaram, nos anos vindouros, a manter e a conservar a sua felicidade. Junto a este alfarrabista, que há mais de quinze anos vendia livros antigos na Avenida do Sol, encontrava-se um antiquário. O proprietário chamava-se Argus Dubois. Quando Carla passava junto à sua loja sonhava em ter um guéridon: uma espécie de mesa diminuta, arredondada, coberta por um tampo em mármore. No final do dia, ela deixaria o livro de Robinson Crusoe em cima da mesa. O dia seguinte seria mais uma descoberta, mais uma jornada.
Não foi apenas Carla que aprendeu alguma coisa com Belling. Com este caso, o famoso hipnotizador descobriu o verdadeiro poder da imaginação e da sugestão, embora já o tivesse praticado noutros casos, embora não com tanto sucesso. As chamadas “imagens âncoras”, como lhes costumava chamar, eram utilizadas por alguns pacientes para lhes dar uma maior sensação de conforto e de segurança durante o transe hipnótico. Consequentemente, Belling aprendeu que essas imagens estão ligadas ao poder dos símbolos. Existia, portanto, uma área muito importante ligada à hipnose que nunca tinha sido devidamente investigada e que agora, com o exemplo de Carla, não podia continuar a ser ignorada. Foi desta forma que Belling inovou uma vez mais, face ao saber que era transmitido pelo Conselho Nacional de Hipnose e em comparação com outros hipnotizadores. A simbologia passou assim a ser um tema de interesse neste campo de trabalho.
O estudo dos símbolos tornou-se, assim, para Marcus Belling uma ferramenta fundamental para compreender melhor o caso particular dos seus pacientes. Na realidade, para se tornar um melhor hipnotizador. Nas suas investigações, Belling apercebeu-se de que o estudo acerca da origem, interpretação e da arte de criar símbolos era mais relevante do que aquilo que julgava para a vida de um hipnotizador: aliás, foi sempre através dos símbolos e da representação simbólica que o ser humano aprendeu a apropriar-se do mundo. Todos os mitos, crenças, factos e ideias são expressos através de símbolos e são eles que representam a realidade. Como seria possível que, durante todos aqueles anos, pudesse ter ignorado esta realidade?
À primeira vista, a simbologia parecia não ter relação com a hipnose. Por sua vez, nada nesta inaudita ligação poderia fazer pressupor que alguém como Belling, com formação em hipnose clínica, enveredaria por uma interpretação mais espiritual do seu trabalho. O interesse pela simbologia não tinha aparentemente ligação com a sua formação de base. Embora considerasse que tinha hoje mais abertura de espírito, Belling era uma pessoa lógica e analítica quando se iniciou na carreira, talvez porque começara cedo a estudar medicina e neurologia. Assim, desde logo aprendeu que o ser humano é composto de muitas conexões nervosas, com formas de organizações específicas na sua biologia, sendo constituído por cérebro, espinal medula e nervo. Ao mesmo tempo, todo o corpo é controlado por um conjunto complexo de movimentos e de sensações. De todos os órgãos que existem, o mais importante de todos era o cérebro humano. De facto, embora este represente apenas dois por cento da massa do corpo, a verdade é que ele recebe vinte e cinco por cento de todo o sangue que é bombeado pelo coração. O sangue, que é um fluído que através das suas correntes leva os nutrientes necessários às células e aos diferentes órgãos humanos. Para um bom hipnotizador como Marcus Belling era fundamental conhecer o funcionamento deste órgão, sobretudo o lobo frontal ou a área pré-frontal do cérebro, que possui uma função executiva. Essa função, como ele sabia, era responsável pela atenção, pensamento e resolução de tarefas, com a qual prevemos resultados do nosso comportamento no futuro: ao mesmo tempo, ganhamos consciência das decisões que tomamos. Para Belling qualquer hipnotizador deveria tomar conhecimento do funcionamento do corpo humano.
Quando há mais de vinte anos, Marcus Belling se tornou membro do Conselho Nacional de Hipnose, ele foi pioneiro em defender que o estudo das neurociências era fundamental para a hipnose. Era uma realidade, que há duas décadas, existiam ainda muitos mitos e superstições relacionados com a hipnose e, portanto, era através do recurso às ciências que se tornaria possível a desconstrução dessas ideias pré-concebidas. Não seria exagerado afirmar que era possível entrar-se num paradoxo quando se tentava descrever a hipnose. Por um lado, era uma espécie de arte, por outro tinha contornos de ciência. Assim, era uma “arte” porque nem todos os hipnotizadores dominavam esta técnica com sucesso e, por outro, porque nem todas as pessoas podiam ser hipnotizadas. Nesse sentido, o transe hipnótico também variava de indivíduo para indivíduo, podendo ser mais profundo ou, ao contrário, ser tão leve ao ponto de o paciente em causa nunca conseguir verdadeiramente relaxar para ser hipnotizado. Todavia, era ao mesmo tempo também uma ciência, porque um bom profissional neste campo teria de compreender a fisiologia humana, o seu sistema nervoso e o funcionamento do cérebro. Esta era a perspetiva de Marcus Belling.
Retomando o poder dos símbolos, Belling apercebera-se que a simbologia era fundamental para compreender melhor as potencialidades da hipnose. Nesse sentido, ele estava bastante grato por ter conhecido uma paciente como a Carla que lhe tinha mostrado um outro mundo para além daquele que ele, enquanto hipnotizador, conhecia. Isso também acontecia. Também era possível os hipnotizadores ficarem mais sábios com as pessoas que hipnotizavam. Esta era sempre uma experiência enriquecedora, para ambas as partes. Contudo, rapidamente Belling também se apercebeu que simbologia e linguagem estavam igualmente conectadas entre si. Uma dependia da outra. Por conseguinte, neste aspeto, Belling chamou a atenção dos outros colegas de profissão para a relevância do discurso do hipnotizador, realizando para o efeito formações diversas sobre linguagem orientada para a hipnose.




