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Глава
PRÓLOGO DO AUTOR
Sob o Coração da América Latina
Querido leitor,
Este livro não nasceu da ficção. Nasceu da memória. Da dor alheia que carreguei dentro de mim por tanto tempo que se tornou minha. De vidas alheias que vi tão de perto que deixaram cicatrizes também nas minhas próprias mãos.
Mía Julieta Arenas não é uma heroína inventada. Ela vive. Em cada mulher que tentou morrer e não morreu. Em cada menina que amou o mundo tão forte que o mundo respondeu com crueldade. Em cada filha que olhou para sua mãe e viu nela, ao mesmo tempo, a carrasca e a vítima.
Escrevi este livro para contar uma história que me confiaram. A história dos clãs Arenas e Moretti, do sangue e da honra, de uma canção que soa de baixo do coração e não tem fim. Do amor que chega quando você está parada sobre aquele que deve matar. E não o mata.
Este livro não trata sobre a máfia. Não trata sobre a violência. Não trata sobre a vingança.
Este livro trata sobre como aprender a respirar de novo. Como amar um mundo que não te amou. Como perdoar aqueles que te feriram. Como encontrar dentro de você aquela menina pequena que um dia acreditou que tudo ia ficar bem. E acreditar nela de novo.
Você vai encontrar nestas páginas o cheiro do jasmim e da pólvora. O gosto do vinho e do sangue. O som dos sinos e o silêncio depois do tiro. Você vai encontrar Córdoba — não a dos guias turísticos, mas a que vive no coração dos que nasceram lá. A que cheira a medo e a amor ao mesmo tempo.
Você vai encontrar Mimi. Aquela que amava o mundo. Apesar de tudo.
E se em algum momento pesar ler — feche o livro. Respire. Lembre-se de que você não está sozinho. Que em algum lugar há alguém que passou pelo mesmo. E sobreviveu. E canta.
Cante com ela.
Porque a canção não mente. E a canção diz: você faz falta a este mundo. Mesmo que o mundo não saiba. Mesmo que você mesmo não acredite.
Com amor e gratidão, Alex Akimoto
Córdoba — Moscou, 2025
CAPÍTULO 1. A MENINA QUE AMAVA O MUNDO
Sob o Coração da América Latina
Minha mãe tentou me matar quatro vezes.
Eu sei disso porque contei cada uma dessas vezes. Todas, gostasse eu ou não, cravaram-se como espinhos profundos no meu coração jovem. Sim, espinhos, soe como soar, porque minha mãe se chama Rosa. E essas cicatrizes são como as pétalas que ela leva no pulso da mão esquerda: como um destino, como uma obsessão que tive que ver quase todos os dias. Minha mãe trazia muitos homens e fazia amor perto de mim. Os homens adultos, enquanto a acariciavam, também me tocavam nas minhas partes íntimas. Sim, era nojento. Mas as pessoas bêbadas, dominadas pela paixão e pela luxúria, cometem atrocidades não só contra si mesmas, mas também contra os outros. E eu não só contava as cicatrizes da alma: contava esses homens que ela trazia para nossa casa, para minha cama, achando que eu dormia. Mas eu não dormia. Vi tudo. Vivi tudo. Como a cinza no cabelo das minhas bonecas, como as bitucas na minha caneca, aquela que ficava ao lado da cama com água para a noite, jogadas pelos que fumavam depois de se deitar com minha mãe, deitados de costas.
Lembrei de tudo. Não porque quisesse morrer, mas porque queria viver com paixão. E cada vez que minha mãe tentava me matar, eu entendia: eu faço falta a este mundo, mesmo que o mundo não saiba. Mesmo que minha mãe não saiba. E mesmo que eu mesma duvide, tenho que viver. Sou necessária! Se não, por que o mundo me salvava detendo a mão dela, tirando minha cabeça da água? Por que quebrar a corda, esse fio do qual poderiam pendurar um touro inteiro?
Alguém me salvava sempre, no último instante. Não minha mãe, não meu pai sem alma, nem mesmo o acaso. Algo diferente. Algo que eu não via, mas que sentia com muita força nos momentos de pena e desespero. Dentro de mim começava a soar uma canção, cuja letra e música eu não entendia e não podia reproduzir, por mais que tentasse. Essa melodia me acompanhava no caminho para a escola, olhando os incontáveis beija-flores pela manhã. Eram tão bons comigo — todos os pássaros, os gatos, os papagaios pousados nos galhos do nosso jardim, gritando com esses sons estranhos. E eu amava minha dor, porque era nos momentos de dor e desespero que meu coração revivia. E vinham as almas dos mortos, às vezes me assustando, às vezes se confundindo. E eu as desenhava, as via de pé, em multidão, no nosso corredor. Era estranho, mas o mundo se abria para mim. E eu me abria para ele. Não gostava de ir à igreja, porque havia muitas mulheres velhas que queriam me agarrar pelo meu cabelo longo e cacheado, pelos meus braços nus. E ao chegar em casa caía exausta e podia dormir dias inteiros, porque essas mulheres velhas me roubavam as forças. Viam que eu entregava minha vida a elas. E eu não queria dar, porque elas tinham trazido muita dor a este mundo. E eu via isso.
Sim, minha mãe se chamava Rosa. Lindo nome com espinhos. Como ela mesma: linda, espinhosa, mas sozinha, ferindo e ferida ao mesmo tempo.
Minha mãe tinha muitas tatuagens. Não como as dessas mulheres que fazem em salões, tão bonitas, tão caprichadas. Não! Aquelas que se fazem nos becos, nas prisões, nos porões. Aquelas que não se apagam nunca mais, que ficam como cicatrizes no casco de um navio que roçou os recifes ou as rochas de granito.
No pulso esquerdo, a rosa da qual eu falava. Preta, com espinhos e sem pétalas. Como se tivessem arrancado as pétalas e só restasse o caule com os espinhos, com uma gota de sangue no espinho. Foi a primeira tatuagem, feita aos quatorze anos. Fez depois que o primeiro homem entrou nela sem amor, tomando-a à força.
No antebraço direito, nomes. Quatro nomes. Quatro homens. Quatro filhos. Os nomes riscados, como com um galho na areia, mas não todos. E ela gostaria de esquecê-los, arrancá-los com a pele, mas os nomes, como a pele, ficam para sempre, enquanto respire e bata o coração. Os nomes não se esquecem. Ficam nos olhos dos filhos que te olham com os olhos desses homens.
No pescoço, atrás da orelha esquerda, uma andorinha, pequena, azul, com as asas abertas em desespero. Como se quisesse se arrancar dali e voar, mas não pode. Porque já não é um pássaro. É uma marca.
Nas costelas, abaixo do peito esquerdo, a data do meu nascimento. Não meu nome, só a data. Como se eu não fosse uma pessoa. Como se fosse um acontecimento. Que aconteceu. E que não se pode desfazer. Mas que se pode não nomear, como um silêncio que não se quer espantar.
Eu via essa tatuagem. Cada vez que minha mãe me amamentava. Cada vez que me abraçava. E quando tentava me matar. E até quando gemia embaixo de outro homem, com as pernas abertas, essa andorinha se banhava em suor, e as gotinhas escorriam por suas asas, como se chorasse ela, esse pássaro assustado, e chorava o céu de dor e de vergonha.
Minha mãe tinha quinze anos quando me teveQuinze. Uma menina que trouxe ao mundo outra menina, uma que ainda queria correr e rir, se apaixonar e sofrer de amor. De repente pariu uma bebezinha prematura de cinco meses, que seu próprio corpo rejeitava. Minha mãe tem fator Rh negativo no sangue, e eu, sua filha, tenho positivo. Minha avó assumiu todos os cuidados comigo. E meu avô, ao me ver tão pequena que cabia nas suas duas mãos, caiu no choro. Minha mãe queria fazer um aborto, mas meu avô e minha avó insistiram para que ela não fizesse. Já então forças desconhecidas me cuidavam, para que eu vivesse. Ninguém me queria. E quando minha mãe disse que ia abortar, meu avô colocou as mãos na cabeça dela e disse as palavras que a detiveram: «Rosa, eu vou ser o padrinho da minha neta. Não mate minha neta. Peço-te por Jesus Cristo». E Rosa me conservou a vida. Seria meu avô? Ou seria o próprio Cristo?
CAPÍTULO 2. O PRIMEIRO SANGUE
No Coração da América Latina
Meu pai era um galã lindo de dezoito anos, com olhos cor de noite nos quais se afogaram muitas garotas. Seu sorriso prometia tudo, como promete o diabo, que nunca cumpre. Ele era do antigo clã Arenas. Mas então eu não sabia disso. Então eu só sabia uma coisa: ele foi embora depois que eu nasci. Foi embora sem dizer uma palavra. Sem deixar nem nome, nem endereço, nem esperança. Nada. Só uma criatura chorando aos gritos ao lado da desventurada Rosa de quinze anos, com sua rosa no pulso, já sem forças para florescer algum dia.
Ele sempre ia embora. Não só da minha mãe. De todas. De cada uma. Zombava das garotas inocentes. As tomava. As deixava. Ia embora. Sem olhar para trás. Sem pedir perdão. Sem voltar. Isso era sua natureza. Como respirar, como o batimento do coração, como aquilo que não para nunca. E atrás dele ficaram por toda a Argentina muitas mulheres infelizes que ele abandonou, e claro, filhos, que agora são meus parentes.
Mas de vez em quando ele voltava para mim. Como um presente emprestado, que te tiram depois. Que só te pertence durante a festa, e depois esse presente de uso temporário colocam sem cerimônia de volta na caixa e levam. Assim foi sempre comigo. As mulheres com as quais ele vivia sempre nos impediam de nos relacionar. E uma vez, um homem sábio e grande me disse: «Se você perdoar seu pai, vai perdoar seu futuro marido. Se passar por cima do seu pai, vai tropeçar no seu marido».
Ele vinha uma hora. Duas. Uma noite. Trazia balas ou um vestido, e às vezes nada. Me olhava longamente, com atenção. Não como a uma filha, mas como a uma coisa que cresceu e ficou parecida com ele. E depois ia embora com a mesma facilidade. Mas houve momentos em que chorava, sem me explicar nada. E eu esperava a próxima vez. Mesmo que fosse sem amor, mesmo que fosse em silêncio e sem palavras, eu morria de vontade de ver meu pai, que no fundo era meu ideal. Esse pelo qual todas as meninas se apaixonam, como todas as meninas se apaixonam pelos seus pais.
Eu tinha sete anos quando cortei meu braço de propósito pela primeira vez.
Não porque quisesse morrer. Queria sentir algo parecido com o vazio e a plenitude ao mesmo tempo. É como quando você grita com todas as suas forças, mas não sai som. Como num sonho terrível e maravilhoso do qual não consegue acordar. Um sonho no qual não me veem, não me notam. E também queria ter certeza de que estava viva, de que meu sangue corria, e de que quando você perde muito sangue, o coração começa a bater mais forte e mais alto. E também que não era um fantasma, que não era um sonho, nem mesmo uma sombra, mas aquela que algum dia vão amar e vão chamar de «meu amor», me levantando nos braços e me protegendo de tudo, sem me soltar nunca mais.
Peguei uma lâmina de barbear, pequena, estreita e flexível como meu corpo, e passei pelo meu pulso, de pele fina e transparente, um pouco pálida pela anemia que me faz doer as pernas com frequência, que me faz desmaiar, e que me tem sempre fria. Minhas mãos nos meus bolsos são como dois sapos frios, mesmo quando em Córdoba faz calor e todos tentam não sair na rua de dia.
A pele se abriu como uma pétala de rosa arrancada, tão rápido e tão de repente! Estava quente, viva, brotando num jorrinho, e eu comecei a chorar de felicidade, entendendo que estava viva e não inventada. Era real! E essa certeza foi maior para mim do que entender que nasci de uma mãe e um pai.
Eu me cortava devagarinho, quase todos os dias escondida, tapando as marcas com as mangas longas dos meus vestidos. Não todos os dias. Mas com frequência. Quando havia silêncio. Ou quando minha mãe estava com outro homem no meu quarto, mesmo de dia, e eu escutava seus gritos exaltados, seus soluços fortes, já sem esconder nada, tanto que mesmo quando apareceu o padrasto na nossa família, ela se permitia andar completamente nua. Seu corpo, depois de quatro partos, do cigarro constante e do álcool, já faz muito que não brilha de esbeltez nem de beleza. Mas seus peitos grandes e sua bunda latina são muito, mas muito atraentes para homens de todas as idades.
Quando meu pai não vinha. Quando meus irmãos dormiam. Quando a casa se calava. E eu ficava sozinha. Com a lâmina. Com o sangue. Com o silêncio, que era mais forte que um grito. Mais forte que o choro. Mais forte que tudo.
Cortava. E escondia tão bem que ninguém percebia. E a todos, no fundo, importava pouco o que acontecia comigo e como eu ia naquela maldita escola que eu odiava.
Eu tinha nove anos quando tentei me enforcar pela primeira vez.
Não porque quisesse morrer, mas para que a dor acabasse, para que o silêncio acabasse. Para que eu parasse de esperar, para que parassem de me olhar como algo absurdo e ao mesmo tempo raro. Como um dinossauro assombroso, cujos restos se encontram num pântano: não importa a ninguém, mas tem valor científico para um círculo muito reduzido de gente que constrói sua vida e seu bem-estar sobre seus ossos. E, claro, como quem roubou a juventude, a infância, e a quem não se pode amar por isso, mas também não odiar ao mesmo tempo. Como uma lembrança viva da dor. Da traição. De uma vida pessoal que não deu certo.
Peguei uma corda. Não lembro de onde. Só lembro que era áspera. Cheirava a poeira de sótão e a jornais velhos que fazia muito ninguém tocava. Amarrei numa viga. Subi num banquinho e passei a corda primeiro pela mão. Não queria. Não queria morrer de jeito nenhum. Queria que alguém me parasse. Que alguém entrasse e gritasse forte: «Mimi, não!». E que me agarrasse pelos meus ombros frágeis e caísse no choro aos gritos, com medo de me perder. E que chorasse e me segurasse muito. E eu queria sentir essa felicidade. Mas ninguém entrou. Ninguém disse nada. Ninguém me abraçou. Fiquei parada no banquinho com a corda na mão, esperando. Esperando um milagre que não chegou.
E então escutei. Uma canção. Baixinho e tão distante. Como se viesse de baixo do piso. De baixo do coração mesmo da terra. Essa canção não tinha letra. Não tinha melodia que os humanos pudessem ouvir, e menos ainda reproduzir. E era tão maravilhoso que na canção escutei, não com a cabeça mas com todo o meu ser: não precisa, meu amor, não precisa. Porque você veio a esta terra para viver. E você é nosso sol e nosso arco-íris. Viva, Mimi. Viva.
Não sei quem cantava. E até hoje não tenho certeza de que fosse real. Mas escutei. E desci do banquinho, tirei a corda. Depois deixei a corda no chão e fui dormir, sem reclamar. Simplesmente fui, como se não tivesse sido comigo. Deixando para trás o único e inquebrantável desejo de viver.
Eu tinha dez anos quando minha mãe tentou me afogar pela primeira vez.
Foi com um desespero que a quebrava por dentro, com vontade de se vingar do seu marido e do meu pai. Pela juventude. Pela pensão alimentícia que ele não queria pagar. E porque eu contei ao meu pai que minha mãe trazia para casa outros homens. Primeiro me jogou no chão do banheiro e começou a me chutar na barriga, com uma fúria selvagem e gritos, tentando me acertar na boca do estômago e no meu peitinho que estava começando a crescer. E depois começou a pular na minha cabeça. Não tinha medo. Nem mesmo dor. Eu ria de que não me doía. E Rosa, vendo isso, com fúria buscava que eu lhe pedisse piedade, que implorasse clemência, porque ela tinha entregado sua juventude em troca da minha vida insignificante. E ao ver que isso não surtia nenhum efeito, me arrastou até a banheira, me puxando pelo cabelo pelo chão frio, encharcado com o sangue dos meus lábios e do meu nariz. E era como num sonho ou como em transe. E ela mesma se comportava como alguém que não entende, que não vê o que faz, que não pode parar.
Encheu a banheira, e eu estava no chão, toda ensanguentada. Os mechões de cabelo espalhados por ali, pisados sobre os coágulos de sangue seco, que pareciam hieróglifos japoneses estranhos, escritos com tinta vermelha sobre uma bandeira branca que carrega ao ataque, sob o barulho da água que enchia a banheira. A água não estava nem morna nem fria, como as lágrimas da minha mãe, que caíam sobre meu rosto, escapadas dos seus olhos, quando inclinada sobre mim me afogava com as duas mãos, me olhando no rosto, curtindo meu sofrimento, mas não havia. Eu sorria e dizia: você não vai me matar, porque me protege mais que só Deus. Atrás de mim está a eternidade. E quando minha mãe me agarrou pelo cabelo e minha cabeça, pega pelo meu cabelo esplêndido de menina latino-americana, mergulhou na água, com os olhos abertos vi algo que sorria para mim e me envolvia o rosto de luz. E nesse momento as mãos de Rosa se abriram, e ela caiu desmaiada sobre o azulejo branco, manchado com meu sangue.
E eu, sem resistir, continuava olhando aquilo que sorria para mim e que, como o sol, me presenteava com o calor do amor, da paz, da alegria — tudo isso que eu desejava desde pequena. Parada ao lado da minha mãe, apenas aprendendo a andar e com a cabeça levantada, olhava como ela pintava os lábios diante do espelho, provando roupa, sem me ver nem um pouco. Sua filha.
A melodia — aquilo que não era melodia — continuava soando dentro de mim e dizendo: viva, viva, viva.
E quando minha mãe voltou a si, me abraçou aos gritos e chorou amargo, forte, entendendo que pela volta do meu pai tinha estado disposta a me matar. Pelos sentimentos que sentia e segue sentindo pelo meu pai até hoje. Está disposta a entregar sua própria vida, mas não pode confessar a si mesma, e muito menos a ele.
Assim chorou minha mãe pela primeira vez. E vi e escutei nela aquela menina de quinze anos, aquela Rosa jovem, que logo também vou ser eu.
— Me perdoa, Mimi — sussurrou minha mãe. Baixinho. Quase inaudível. Como uma oração, como uma maldição, como algo que não deveria ser dito em voz alta mas se diz. — Me perdoa! Não queria. Não sei o que acontece comigo. Me perdoa!
Não respondi. Não podia. Não queria. Fiquei parada, simplesmente. Meu corpo molhado tremia, mas não de medo, mas de entender o enorme que é o mundo que está atrás de mim, e o forte que é meu desejo de viver. E a canção continuava emanando de lugar nenhum, continuando me enchendo de vida — milhões de bateres de asas de beija-flores no meu peito.
Apesar da sua vontade de pedir perdão naquela vez, apesar das suas palavras apaixonadas sobre o perdão, minha mãe me afogou várias vezes mais. Não quero enumerar quando nem como foram essas cenas. Só lembro do meu mergulho debaixo da água entre cada inspiração antes de me submergir e cada expiração quando minha cabeça subia. Lembro de todas as pausas. E lembro das suas mãos, metidas no meu cabelo cacheado.
CAPÍTULO 3. TRÊS NOMES
No Coração da América Latina
Eu tinha treze anos quando decidi me enforcar no dia do meu aniversário.
Não queria festa nem sorrisos falsos de convidados. Queria silêncio e paz. O amor e os abraços da minha avó, as brincadeiras do meu avô e, claro, o calor do lar. Mas minha festa se transformava numa baderna quando minha mãe, bêbada, se jogava de novo na minha cama com outro homem e transava.
Peguei aquela mesma corda do sótão, que cheirava a poeira e a jornais velhos. Depois amarrei a corda numa viga no galpão atrás da casa, onde ninguém passa nem vê. Subi no banquinho. Passei a corda pelo pescoço. Mas desta vez não pela mão, mas pelo pescoço. Porque eu tinha treze anos e me parecia que estava cansada. Cansada de esperar e de ter esperança. Cansada de amar um mundo que não me amava. Cansada de ser a que não notam. Cansada de ser a Mimi invisível e desnecessária.
Fechei os olhos e escutei aquela mesma canção sem palavras, que cantava: não precisa. Você é necessária. Viva para aquele que vive imortal dentro de você.
E então vi uma mão em chamas, estendida para mim desde o vazio, suspensa no ar. A mão era morna e viva. Me tocou a bochecha devagarinho e com cuidado, como se toca algo que poderiam quebrar e perder, mas que não deveriam fazer isso.
— Julieta — disse a voz. — Hoje não. Assim não. Agora não. Viva.
E desci do banquinho, tirei a corda e a joguei longe de mim, como se fosse uma serpente venenosa.
Não sei quem era. Não sei se foi real. Mas escutei. Senti e vivi. E isso foi mais do que eu podia pedir, mais do que eu podia esperar. Mais do que eu podia sonhar. Vivi, apesar de tudo, graças a algo. Àquilo que não me soltou nunca.
Meu pai me levou quando eu tinha catorze anos.
Não por amor nem por algum sentimento por mim que de repente ardesse no seu peito. Morreu o chefe do clã Arenas e era preciso um herdeiro. Meu pai não tinha filhos homens no sentido de poder continuar a obra do seu sangue. Esses dois filhos, nascidos depois de mim, física, ou melhor, mentalmente, não podiam ser candidatos a herdeiros. Tanto o mais velho quanto o mais novo, nascidos de mulheres diferentes, sofriam autismo em alguma forma. Na nossa família isso é hereditário por linha paterna. Em alguns mais forte, em outros mais fraco. Eu talvez tivesse ou tenho autismo, mas os médicos e psicólogos que me observaram e me examinaram não detectaram nada crítico, e por isso disseram ao meu pai que sua filha estava sã. Mas que precisava sim de uma alimentação abundante em carne e verduras de maneira regular, pelos níveis muito baixos de hemoglobina no sangue.
Papai chegou a Córdoba, à nossa casinha, que nos tinha deixado uma argentina boa, que foi embora de Córdoba para sempre depois da morte de todos os seus entes queridos. Depois de vender a segunda casa e juntar todas as suas coisas, se despediu de nós com muito carinho na porta do que já era nossa casa, nos deixou para sempre, e nem sabemos nada do destino dessa mulher argentina maravilhosa. Tendo vivido meus anos na minha cidade linda, amo de verdade meu povo, os argentinos. Amo tanto que às vezes me parece que me dissolvi nele. E onde quer que eu esteja, comigo está meu Fernet querido, cuja pátria é justamente minha cidade, Córdoba. E meu alfajor mais gostoso do mundo inteiro, principalmente o que fazem as mãos de ouro da minha vó Adriana. Vó, meu anjo salvador, que caminhou ao meu lado a vida toda, e agradeço de coração que tenha sido justamente a vó quem me contou o quão maravilhoso é meu povo argentino. E quanta dor aguentou este povo, o quão difícil foi para nossas mulheres, que perderam seus filhos em guerras e levantes, filhos que não se podem recuperar. Onde quer que eu esteja, muitas vezes volto com a mente à Manzana Jesuítica, que fascina com sua beleza, e àquelas vistas de sonho das Sierras Chicas, esse gigante que faz de guardião da minha cidade querida. Meu povo, ao qual pertenço até a última gota do meu sangue, além disso é muito inteligente e merece de verdade o nome de La Docta, sendo o centro intelectual e espiritual da Argentina ao lado de Buenos Aires.
Naquele mesmo quarto onde minha mãe tentou me afogar, entrou meu pai com cara de guardião sombrio e, sem nem me cumprimentar como se costuma entre argentinos educados, logo olhou minha mãe com atenção e com um frio cortante. No olhar havia distância e a lembrança incômoda do passado, da sua separação dela, que trouxe a ele e a ela muitos momentos desagradáveis. E entendiam que os dois eram culpados de tudo, mas já não havia volta. Ela tinha seu homem, ou para ser honesta, uma fila. Como ele tinha uma fila de mulheres, e não das melhores, por sinal. Assim vivem os adultos, assim gostam. Depois se arrependem, mas disso se lembram só quando a perda do passado pesa mais que a perda do presente. E cada encontro novo que vira relação, por algum motivo sempre é pior que o anterior. Rosa o olhava com um leve desconcerto e com um metal fingido de indiferença, e perguntou: «O que você quer?» E a voz tremeu. Tremia de dor da alma e de paixão por ele. Queria se jogar no pescoço dele e gritar com todas as forças: «Me perdoa, te amo!», e cair no choro como aquela menina de quinze anos que carregava sob seu coração latino jovem uma vida nova e linda — eu.




