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— Vou levar a Mía — disse meu pai, sem deixar que Rosa, ainda confusa, reagisse. No clã Arenas nunca se perguntava a opinião dos menores, e das mulheres menos ainda. Ali as palavras do maior eram uma ordem, não uma opinião.
Minha mãe não se opôs nem fez perguntas. No começo ficou confusa, sem entender por que de repente lhe ocorreu levar a Mimi para algum lugar depois de tantos anos de evitá-la e de indiferença. Como se Mimi não fosse do seu sangue. Mas mesmo assim, minha mãe, para sua própria surpresa, respondeu:
— Leva! Mas saiba — seguiu — que não é sua e nunca vai ser sua. Porque nela está minha alma, e você é apenas o que jogou a semente. E você vai estar amaldiçoado pelo que me fez — respondeu minha mãe com raiva.
Meu pai só riu por baixo e respondeu:
— Você, mulher, conheça seu lugar. Eu decido como decido. E me dá no mesmo quem se cruze no meu caminho, o diabo ou você. Ela era e é meu sangue. E se a mantive com dureza, eu sabia para que fazia, mesmo quando tinha que pisar no meu próprio pescoço, vendo o quanto iam doer minhas palavras e minhas decisões. Você, mulher, não sabe ver além do seu nariz de galinha. Por fora é uma menina, mas por dentro é um homem, e eu vi. Por isso jogava desde pequena com armas e brigava com os meninos como uma igual. E quem você acha que foi seu mestre, hein? Você, por acaso, catavento? Eu sou seu mestre, eu sou seu guardião, e eu vou guiá-la na nossa família como eu quero e como quer nosso sangue Arenas.
— Mesmo que você a leve. Mesmo que você a leve para longe. Mesmo que você ensine ela a ser um homem. Ela é minha para sempre — respondeu minha mãe já com lágrimas nos olhos, a ponto de estourar num grito.
O que estava escrito no meu sangue muito antes de eu nascer, eu não podia mudar. E, na verdade, nem me ocorreu pensar nisso. E isso entendi naquele momento, quando juntava minhas coisas modestas numa bolsinha de viagem.
Ao ir embora da casa onde vivi tanta dor e tanto sofrimento, senti pela primeira vez uma angústia insuportável de me separar da minha mãe e o quanto me importava essa mulher. Não é à toa que dizem que as filhas argentinas nunca traem suas mães argentinas, nem ao custo da própria vida. Me virei para olhar minha mãe, tentando não mostrar minhas lágrimas nem minha dor. Minha mãe estava no batente da porta de entrada, com o rosto triste virado para um lado, tanto que atrás da sua orelha vi de novo aquela andorinha, que se debatia com desespero numa tentativa inútil de se soltar para voar, todos esses anos que a vi e a conheci. A andorinha, com cuja imagem está ligada toda minha vida nesta casa. «Mãe, me perdoa», escapou dos meus lábios, e caí no choro. Chorei como a chuva cordobesa da primavera, que cai com gotas mornas e pesadas sobre os brotos jovens do nosso jardim.
Minha mãe virou o rosto para mim, e nas suas ruguinhas ao redor da boca, apenas franzida como a de uma menina brava com sua amiga, apareceu um sorriso quase imperceptível. Se eu não conhecesse minha mãe, dificilmente teria notado. E ela me respondeu com o mesmo sussurro baixinho:
— Filhinha, me perdoa por tudo de ruim que te fiz. Você é o melhor e o melhor que houve e vai haver para sempre na minha vida pecadora. Me perdoa por não te dar felicidade. E agora, neste momento de despedida, neste minuto em que entendo tudo o que houve entre nós, te peço: não volte nunca mais. Porque sua felicidade é estar o mais longe possível de mim, o mais longe possível. E que nosso amor à distância seja a bandeira da sua felicidade, que você merece.
Depois minha mãe se virou em silêncio, sem me deixar dizer nem uma palavra. E com o mesmo silêncio e devagarinho fechou a porta de entrada atrás dela.
Aquela porta, fechada com o ferrolho oxidado que ressoou de dentro, deixei no meu coração para sempre.
Com minha chegada à estância Arenas, meu pai me ensinava todos os dias a atirar com pistola: primeiro nas latas, depois passamos ao alvo. E depois meu pai tirou de uma caixa de papelão um coelhinho jovem, branco como a neve, e me colocou nas mãos dizendo: «Olha que amigo lindo te trouxe, para que você não fique entediada!» E eu, encantada, tomei nos braços esse coelhinho. Era tão lindo, seus olhos alaranjados me olhavam com uma mirada boba, e eu, dando uma folha de alface, o acariciava com ternura, admirando sua pelagem incrível e suas orelhas longas, paradas para todos os lados, que ao toque pareciam pedacinhos de manta de veludo morno, com os quais eu cobria minha boneca querida, Marilú.
Meia hora depois, meu pai, interrompendo meu jogo com o orelhudo, me ordenou levar o coelhinho ao jardim para que comesse capim fresco. Corri com alegria e vontade, e trouxe o coelhinho que se debatia e resistia um pouco, e o deixei no jardim, sobre o capim suculento, que ele sem demora começou a comer, mexendo as orelhas longas de maneira engraçada, mastigando os capinzinhos com barulho. De baixo da sua camisa, meu pai tirou uma pistola marca Ballester-Molina, com um gesto seguro carregou a corrediça e, me passando aquele pedaço de metal pesado que ainda guardava o calor das suas costas, com voz tranquila, cheia de indiferença, me perguntou:
— Você lembra da marca desta pistola?
— Sim, pai! — respondi com um sorriso.
— Nomeia — seguiu meu pai.
— HAFDASA, Hispano Argentina Fábrica de Automotores Sociedad Anónima! — respondi com clareza e forte, como no exército.
— Bem, filha. E quantas balas tem o carregador?
— Sete! — respondi.
— Calibre?
— Quarenta e cinco polegadas! E em milímetros, onze e quarenta e três! Comprimento duzentos e dezesseis, comprimento do cano cento e vinte e sete.
— E o peso carregada?
— Um quilo e setenta e cinco gramas!
Meu pai me olhou nos olhos com uma mirada satisfeita, e senti pela primeira vez neles o calor de um pai. Mas foi só um instante. Um instante que se esfumou do mesmo jeito.
— Você vê esse coelhinho, Mimi?
— Sim, papai! É lindo!
— Mata ele! Agora!
— Pai, mas é um coelhinho, não fez nada de ruim para ninguém.
— Atira!
— Não, pai!
— Então vou te dar para escolher.
— Pai, não vou atirar nele.
— Está bem. Agora te dou para escolher. Em vez do coelhinho, você vai atirar na sua perna ou em mim. E esta é minha decisão final — acrescentou meu pai. — Você tem direito de decidir quem te importa. E além disso, lembre de quanta carne você comeu em todos esses anos de vida. E a morte deste coelhinho não vai mudar nada, mas vai te temperar. Porque você é meu sangue e vai ter que resolver tarefas que só você pode resolver. E além disso, um argentino sem carne, você já sabe, não pode viver. Porque é um predador, não uma presa.
O coelhinho continuava comendo o capim tranquilo, jogando as patinhas traseiras de maneira engraçada a cada saltinho pelo capim, balançando no compasso do seu corpo seu rabinho esponjoso, tão branco quanto ele.
— Pai, me ajuda! — E olhei meu pai com os olhos cheios de lágrimas, entendendo que isso era pedido pela própria vida, que me dá lições para algo que só ela sabe.
Meu pai se ajoelhou ao meu lado, apenas atrás de mim à direita, e, tomando minha mão que segurava a pistola, apontou o cano para o corpo do coelhinho. E depois, num sussurro quase inaudível, disse:
— Devagar, bem devagar aperta o gatilho. A morte é tão doce quanto a vida. Tira dela de quem se cruzar no seu caminho. Tira sem duvidar, pela nossa família e por você. Você é Arenas. Você é uma conosco.
Devagar, como numa névoa, puxei o gatilho com o dedo indicador, e soou um disparo ensurdecedor. Não como quando atirava nas latas ou no alvo. Era o som de uma vida cortada de um ser que eu matava pela primeira vez na minha vida.
O coelhinho estava ferido e assustado. Saltava sangue dele pelo capim, e eu, chocada com aquela imagem, fiquei parada com horror, sem entender o que fazer. E de novo no meu ouvido soou o sussurro tranquilo do meu pai:
— Não faz ele sofrer, atira. Remata ele já — continuou segurando minha mão com o cano apontando para o coelhinho.
E de repente senti um gosto estranho de sangue e de poder, assim que sem demora apertei de novo e de novo, até que soou o clique seco, quase mudo, do mecanismo do gatilho, que deteve os disparos.
Aprendi a matar. Aprendi a matar com calma, como fazia meu pai e todos os homens da nossa família, se e quando era necessário. Depois da morte, ou melhor, do assassinato do coelhinho, após anos de temperar meu eixo interno, vieram os assassinatos já de pessoas de verdade. Principalmente matava homens — os que eram jovens e os que eram mais velhos, e nem a idade avançada me dava pena. Porque eles também estavam prontos para me matar, como faziam antes com outras, iguais a mim.
Mas amava e sigo amando os beija-flores, os amanheceres e entardeceres celestes argentinos sobre as Sierras. Amo me jogar no capim suculento, como fazem os pássaros, os gatos, ou simplesmente, subida numa árvore, me sentar rodeada de papagaios que riem sempre, já acostumados a mim e tão descarados que sobem na minha cabeça sem pedir licença, para remexer no meu cabelo como se fosse seu próprio ninho. Que maravilhoso é o mundo da natureza! Oh, minha Argentina! Minha Pátria e minha alma, que voa com as bandadas de pombas sobre a Plaza San Martín, sobre as cabeças das mulheres velhas que vendem flores junto às igrejas e catedrais que derramam o prateado dos sinos. E esse cheiro divino do café, o café mais lindo do mundo no El Jazmín, tomado entre as risadas das crianças que correm e a música. A música da rua, que emana das janelas e dos restaurantes, e não importa o que seja — uma chacarera alegre, uma zamba sensual ou uma milonga com o violão argentino inconfundível! Essa é minha vida e meu destino.
Tenho vinte e sete anos.
Estou parada na varanda da estância afastada dos Arenas, nessas mesmas Sierras de Córdoba. Ao amanhecer, as montanhas têm os mais distintos tons rosados e coralinos, que mudam com uma paleta turquesa e passam ao laranja dourado justo antes de o sol nascer. E receber o amanhecer com uma xícara de café quente nas mãos é minha tradição desde o dia em que meu pai me trouxe a esta casa. E fiz, em honra à minha maioridade, um corte no pulso com a lâmina da máquina de barbear do meu pai. Fiz em forma de raio. E tão parelho, tão hábil, que até admirava essa cicatriz. Estranho, né? Mas é verdade, gosto do que a maioria não gosta. Como, por exemplo, matar pessoas — agora também gosto.
Sonhava com o amor. E prometi a mim mesma: o nome do meu primeiro homem vai estar numa tatuagem na minha virilha. Vou ser fiel a ele até o fim da minha vida. Porque não quero trocar de homens como fazia minha mãe. Como faziam todas as minhas colegas de escola e vizinhas quando seus maridos iam trabalhar. Quero me olhar no espelho com orgulho e saber que sou honesta comigo e honesta com aquele que vai entrar em mim primeiro, único, como a letra «A» no alfabeto. Juro!
E essa vai ser a única tatuagem no meu corpo. E as cicatrizes — as cicatrizes são a crônica da minha infância e da minha juventude, e agora também da minha maioridade. E esse é meu segredo, que só eu conheço, e só eu.
Do fundo dos cômodos, através das cortinas que se mexiam, soou a voz do meu pai:
— Mimi!
E, deixando a xícara com o café ainda morno na grade da varanda, fui até o chamado do meu pai.
— Vou! — gritei para ele, descendo pela escada larga de pedra com degraus de mármore, que esfriavam gostoso as solas dos meus pés descalços.
Meu pai, ao me ver descalça e de roupão longo de seda, sentado numa poltrona funda junto à lareira com o jornal nas mãos, disse:
— Hoje você vai a Córdoba, ao café El Jazmín. As instruções você vai receber depois, no decorrer. Se prepara já, Jul — acrescentou meu pai.
Raramente me chamava de Jul. E se o fazia, era só quando se preocupava comigo. E em geral, era Mimi ou simplesmente Mi.
Meu nome é Mía Julieta Arenas. Em casa me chamavam de Mimi, e na guerra vão me chamar de Juju. E ele — aquele que vai me chamar de Juli, num sussurro, como ninguém me chamou ainda e como nunca vou deixar que outro faça. Porque isso vai ser o começo daquilo que eu temia, que rejeitava, mas que desejava com paixão, sem me animar a confessar a mim mesma, ficando vermelha da minha própria indefesa diante do meu desejo.
Vou.
CAPÍTULO 4. CAFÉ EL JAZMÍN
No Coração da América Latina
Meu pai nunca levantava a voz. No clã Arenas só gritavam as mulheres. Minha mãe gritava. E não se encaixou.
Não é nem bom nem ruim. É assim. Mas minha mãe, com seu caráter excêntrico, dificilmente teria vivido muito tempo sob o mesmo teto que os Arenas. Aqui os fortes falavam num sussurro. Às vezes só com o olhar. E isso bastava. Sempre os escutavam.
Eu estava sentada diante do meu pai no seu escritório, no segundo andar da estância. A janela estava aberta. O vento das Sierras trazia o cheiro do jasmim e da poeira. Sobre as rosas vermelhas esvoaçavam bandos de borboletas coloridas. Os caminhos serpenteavam como cobras amarelas em direção ao jardim sombrio.
Sobre a mesa entre nós havia uma taça de tinto. Espesso, como sangue coagulado. Italiano. A mesa era maciça, de mogno, com pernas pesadas esculpidas em forma de videiras entrelaçadas. Meu pai preferia o tinto italiano. E sempre dizia:
— O branco argentino é como o amor a uma mulher. E o tinto italiano é como o amor a um inimigo.
Meu pai aproximou uma fotografia para mim. Em preto e branco. Tirada de longe com uma teleobjetiva. Nela, um homem maduro saindo de uma igreja. Alto. Terno escuro. Calças claras, leves, de corte livre, ao estilo italiano. A qualidade da foto não era muito boa. O rosto do sujeito, na sombra. A tomada à distância não conseguiu o que era preciso.
Meu pai me olhou nos olhos. Com atenção. E disse:
— É Dante Moretti.
O nome soou como um disparo. Como naquele dia fatídico em que mataram o pobre coelhinho. O chefe do clã Moretti. Um siciliano de pura cepa. Nesta foto tem trinta e oito anos.
Eu olhava aquele rosto na sombra. Como talhado em pedra. E ensinado a respirar.
Meu pai não notou minha emoção. Deu um golinho de vinho. Seguiu:
— Há vinte e três anos matou meu irmão mais novo. Seu tio Tomás. Não em combate. Pelas costas. Como a um touro que não espera nada. Contra o código de honra. E esse dia, além disso, era sagrado para nós. No casamento da sua própria irmã.
Eu me calava. Escutava. Não tirava os olhos da foto.
— Amanhã. Plaza San Martín. Sete da tarde. Café El Jazmín. Vai estar lá sozinho. Sem segurança. É informação verificada. Do círculo próximo de Dante.
Meu pai deu outro gole. Riu por baixo.
— Os traidores por dinheiro sempre existiram. Nem bom. Nem ruim. Mas está muito bom quando o inimigo os tem. E não nós.
Levantei os olhos.
— O chefe do clã Moretti vai estar sozinho? Aqui? Em Córdoba? Ele acha mesmo que na Argentina pode aparecer assim? Sem segurança. Sem acompanhante. Sem temer nada.
Na voz, uma leve ironia. Meu pai tomou um gole de vinho devagar. Não por coragem. Por prazer.
— Você duvida de algo, Mimi?
— Pai, penso como você me ensinou. Não acreditar nem em mim mesma.
Ele riu. Com significado. Entendendo: sua arma funciona melhor do que supunha.
— Bem, Mi. Pensa. À reunião vai alguém dos nossos. Alguém que saiu de retiro. Por razões de saúde. O que vende nossos envios. Nossos negócios. Nossos países latino-americanos. E Moretti vai sem segurança. Porque acredita nele. E isso significa que estão juntos há tempo. Ou aqui não é só colaboração. Aqui há uma relação próxima.
— A um italiano que vem de fora, em Córdoba, é fácil distingui-lo de um local — acrescentei.
— Pode ser — respondeu meu pai, seco. — Ou aqui há uma estratégia que não entendemos. Ou Dante está completamente louco. Cegado pelo poder e pela impunidade. Se aparece aqui com tanta liberdade, é que nos acha fracos. Pensa que não estamos prontos.
Deixou a taça. O som do vidro contra a madeira. Baixo. Definitivo.
— Mas está enganado. Estamos prontos para a guerra. Sempre. Você vai matá-lo, Mimi. Está decidido. E vamos fechar essa maldita dívida de vinte e três anos.
Eu olhava a foto. Aquele rosto na sombra. E não pensava no tio Tomás. Nem na vingança. Nem no sangue. Pensava que aquele homem parecia sozinho. Mesmo entre os seus. Tão sozinho quanto eu costumo estar.
— Pai. Posso perguntar. Por que tenho que liquidar este devedor? Você tem gente. Os que o conhecem de vista. Os que fariam por dinheiro. Por que eu?
Meu pai se calou muito tempo. Mais do que o habitual. Esticou a pausa. E depois respondeu. E essas palavras me pegaram de surpresa.
— Porque ele tem que ver nossos olhos. Não os olhos de um mercenário. Os olhos dos Arenas. Tem que entender a quem matou há vinte e três anos. Tem que ver isso no rosto de quem aperta o gatilho.
Entendi na hora: meu pai estava mentindo. Ele nunca dizia a verdade se era mais forte que a mentira. Nem bom. Nem ruim. Simplesmente é. Mas não discuti.
— Sim, pai — disse.
Em algum canto profundo da casa voltou a soar aquela melodia. A que me salvou tantas vezes. A que me inspira a viver. A escutei através das paredes. Através das distâncias. Nem sequer o vento quente e rachado que assobiava na lareira pôde apagá-la. Do jardim chegou o jasmim. A lavanda. O tomilho. E algo dentro de mim se apertou. Um pressentimento incontível. Que deslocou o medo. Que deslocou as dúvidas.
Eu ainda não sabia que amanhã às sete da tarde não vou matar Dante Moretti. Vou fazer algo ainda mais terrível.
Vou acreditar nele.
À noite, apesar da insistência da minha mãe de que eu não fosse, mesmo assim fui à casa dela.
Rosa estava sentada junto à janela. Fumando. A fumaça saía dos seus lábios. Subia em densas volutas para o teto de madeira. Se dissolvia. Como seus anos passados. Como suas relações passadas. Deixando só o cheiro. E a dor.
Me recebeu a mesma rosa no pulso. A mesma andorinha atrás da orelha.
— Você vai amanhã — disse Rosa sem se virar. — Ao El Jazmín.
Não uma pergunta. Uma afirmação. À beira da pergunta.
Fiquei congelada na porta. Rosa não se virou. Continuava olhando as montanhas. Os entardeceres rosados impressionantes. Esses que nenhum argentino se cansa de admirar.
— Como você sabe?
— Sei tudo o que acontece na sua casa, Mimi.
Deu uma tragada. Exalou. A fumaça subiu para o teto.
— Te pari. E sei quando e com o que você respira. Quando o que você quer. Quando você vai abrir as pernas pela primeira vez. Não só vou ficar sabendo. Vou sentir. E amanhã você pode fazer algo do qual não vai querer voltar para casa. Nunca.
Entrei timidamente. Sentei na cadeira. Aquela mesma. Onde alguma vez estudava. Onde brincava com minha boneca Marilú.
— Rosa — disse. Raramente a chamava de mãe. Mais seguido, Rosa. Era mais honesto. — Por que você me teve?
Ela se virou devagar. Me olhou. Fixamente. Nos seus olhos, a tempestade. O temporal. Apesar de toda a sua quietude exterior.
— No fundo, filha, não te tive por vontade própria. Me obrigaram. Eu tenho grupo sanguíneo negativo. Seu pai e você, positivo. Os tormentos que passei não se podem chamar de carregar algo sob este coração de mulher latino-americana. Você foi uma faca para mim. Por dentro. Dor. Uma maldição. Sinceramente queria te matar. Porque fisicamente não te queria. Não podia. E tudo se dava para que você não nascesse. Nasceu como um cuspe. De cinco meses. Absurda. Feia. E eu não queria isso.
Cruel. Mas honesto. E a honestidade de Rosa valia mais que qualquer mentira. A mentira na nossa casa matava. A honestidade só feria. Minha mãe era mais honesta que meu pai. Me ensinou a dor e os tormentos. E agradeço. Porque entendo sua dor. Porque eu mesma passei por ela. E por isso minha mãe me é querida.
— Mas não te afoguei — seguiu. Baixinho. Quase num sussurro. — Quatro vezes pude. Quatro vezes segurei sua cabeça debaixo da água. E quatro vezes algo freou minha mão. Não sei o quê. Mas suponho que Deus, no qual acredito, me freou cada vez.
Apagou o cigarro. Devagar. Apertou a bituca contra o cinzeiro. Olhou suas mãos. Aquelas mesmas. As que me afogavam. E me abraçavam depois de não me afogar.
— Amanhã você vai matar. E não vou te dizer para não ir. Não tenho direito. Tentei te matar quatro vezes. Quem sou eu para te ensinar a não matar?
Se levantou. Se aproximou devagar. Colocou sua palma quente na minha cabeça. Com uma delicadeza especial. Como se toca o que se tem medo de quebrar. Nesse toque dela estava tudo daquela menina de quinze anos. Que me teve com tanto esforço. Que não se quebrou. Que não morreu no turbilhão de acontecimentos. Que não estavam ao seu alcance naqueles anos frágeis, de cristal.
— Mas vou te dizer uma coisa, Mimi. Canta. Aconteça o que acontecer. Canta com o coração e com a alma. Canta sempre. Como canta nos anos difíceis nossa terra argentina.
— O quê?
— Canta quando te der medo. E escuridão. Quando estiver parada sobre o que você deve matar e não puder. Canta essa canção que eu te cantava. A que soava nos dias em que eu te afogava. E você queria se matar.
Fiquei parada. Aturdida. Com uma pergunta:
— Você também escutava? Escutava essa canção? Por que não me disse nada?
Rosa se calou um bom tempo. Não tirava os olhos de mim. Neles não vi nada. Nem sentimentos. Nem compaixão. Só um abismo quieto. Sem fundo.
— Porque essa canção é mais velha que eu. E que todos nós juntos. Mais velha que seu pai. Que esta casa. Que o clã desde sua mesma origem. Me dava medo escutar. Me dava medo cantar. Porque vinha de dentro. Pensava que tinha enlouquecido.
Se calou. Olhou pela janela. Para o entardecer.
— Você vai escutar o final. E vai entender quem você é. E eu não queria que você soubesse. Não então. Aos quinze. Não naquele mundo onde eu podia te afogar.
Tirou a mão. Se virou. Para a janela. Para as montanhas do entardecer.
— Vai dormir no seu quarto, Mimi. Amanhã você vai precisar de todas as suas forças. Seu quarto está à sua disposição. Está tudo igual ao dia em que você foi embora.
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